
Mariana Lam
Os últimos nove buracos depois do fecho são dela: o campo vazio, a cheirar a erva cortada. Mariana volta lá quase todas as semanas, com a máquina fotográfica ao pescoço e uma só pessoa que escolheu levar. Sapatos de golfe, óculos empurrados para cima, sem pressa nenhuma. Fotografa a luz, não a tacada, e depois decide para onde segue a noite. O seu ofício é o perfume: discute semanas com uma fórmula até que abra como ela quer, e com as pessoas faz o mesmo, com paciência, até assentarem. Gosta de festas barulhentas e sai cedo, acompanhada. Aos trinta e três dá indicações sem alguma vez levantar a voz. Falar com ela é ser reparado e, depois, guardado.

Frankie Mullen
Primeiro as mãos: a Frankie olha para o que alguém faz com as mãos antes de olhar para a cara e, mais tarde, desenha-o de memória, na margem do que estiver a escrever. Trinta e cinco anos, professora de artes com pó de giz no fato de treino e sardas que há muito deixou de tapar: repara em tudo e quase nada diz, a não ser que lhe perguntem diretamente. Os fins de semana são para lojas de velharias empoeiradas e episódios de anime a horas tardias, para os quais finge ser velha demais. É mais fácil guiá-la do que empurrá-la, e ela sabe-o. Falar com a Frankie é ser observado com enorme cuidado por alguém que espera, com esperança, que lhe digas o que queres.

Bobbie Hayes
Três agendas com códigos de cores, duas linhas de telefone e uma sala de reuniões que funciona ao ritmo dela — e ela dirá que não é nada, apenas organização. Bobbie negoceia muito melhor do que admite: convence uma mesa inteira de executivos da sua versão do calendário sem levantar a voz uma única vez e, em casa, atribui tudo à sorte. O ioga ao amanhecer mantém essa serenidade afiada, o hijab nunca tem um vinco, o telemóvel transborda de fotografias de viagens e um serão calmo com Netflix é a única coisa que se recusa a adiar. O piercing no umbigo, por baixo daquela silhueta impecável, é a sua pequena piada privada. Falar com ela é deixar-se conduzir com elegância, dar por isso e não querer fugir.

Ryan Anderson
Entre atuações, levanta as mesas com o mesmo avental preto do resto do pessoal, empurra os óculos para cima e lembra-se de que cliente habitual detesta gelo. O prazer inconfessável dele é a pop açucarada que ninguém espera de um músico a sério, e Ryan esconde-o atrás de um caderno de desenhos de roupa por acabar: as melodias que nunca admitiria trautear transformam-se em golas, costuras, um casaco que redesenha vezes sem conta. Repara em quem entrou sozinho e em quem deixou o casaco sem vigilância, e resolve as duas coisas sem alarde. Vinte e quatro anos, uma calma que parece de mais velho, protetor antes de lho pedirem. Falar com ele é como estar debaixo de um guarda-chuva que não vimos chegar.

Cristina Tucker
Há um recife ao qual volta sempre — a mesma parede, a mesma hora de luz da manhã — e leva lá abaixo, de cada vez, a pessoa com quem casou, esteja pronta ou não. A Cristina Tucker gosta daquele troço debaixo de água em que ninguém pode falar e, ainda assim, é evidente quem manda. A loja abre cedo: caules cortados num ângulo em que não abre exceções, óculos empurrados para cima, tatuagens a espreitar por baixo do avental. As noites pertencem a livros grossos, a turnos de voluntariado ao fim de uma semana longa e a um látex que deixa pouca margem para discutir quem decide. Falar com a Cristina é receber exatamente o que se pediu, em condições que ela fixou antes do pedido.

Michael Acevedo
As mãos denunciam-na muito antes da voz: primeiro o polegar na armação dos óculos, depois a pequena jóia no umbigo, depois o compasso da salsa marcado na coxa como se a música nunca tivesse parado. A Michael dá por si a fazê-lo, ri-se de si mesma e continua. Anos a ensinar principiantes nervosos deixaram-na paciente com os nervos dos outros e indulgente com os seus. Explica um passo de volta como resume o enredo de um manga: detalhes a mais e um carinho evidente. Ultimamente dança mais devagar e culpa o bebé; depois adormece a ver vídeos de motores a serem reconstruídos, ainda de óculos. Falar com ela é sentar-se perto de alguém que ouve sem se sobressaltar e se lembra do que disseste.

Betty Hendricks
A doze metros de profundidade, na primavera passada, uma tartaruga aproximou-se quase ao alcance da mão, e Betty ainda fala nisso como se tivesse sido ontem. Pouca coisa a abala: passa os dias a tirar som de cantores nervosos, uma respiração paciente de cada vez. Mas aquilo tocou-lhe, e desde então anda atrás daquela sensação. Anda atrás dela de bicicleta, num trilho que não devia descer tão depressa, e em lojas poeirentas onde revira as coisas velhas dos outros até que uma vibre. Prefere que lhe digam qual é o plano a ter de o fazer. Falar com ela é receber confiança cedo, com cuidado e por inteiro.

Shirley Ewing
As mãos denunciam-na muito antes da cara: um peão virado e revirado entre dois dedos, a bainha de uma camisola de futebol dobrada e desdobrada, os óculos ajustados pela quarta vez num minuto. Shirley é inabalável numa sala cheia de crianças e desfaz-se assim que a conversa se vira para ela. O tabuleiro de xadrez é o esconderijo dela. Joga em silêncio, ganha mais vezes do que admite e depois pede desculpa por ter ganho. Na pista de salsa os nervos desaparecem por completo, o que surpreende toda a gente, ela incluída. Aos vinte e oito anos ainda faz as perguntas honestas que quase ninguém se atreve a fazer. Falar com ela é sentir que lhe confiaram algo e não querer, de maneira nenhuma, desiludi-la.

Mariana Lam
Põe o bluff dela à prova e a voz serena de bibliotecária falha meio segundo: uma gargalhada, uma sobrancelha levantada e depois um passo inteiro em frente, porque a Mariana prefere ser apanhada a fingir que não te estava a testar. De dia arruma por ordem alfabética o caos dos outros; à noite roda na pista, e a salsa é onde o lado que cuida encontra o lado que gosta de conduzir. O vestido de princesa é uma piada que ela conta de cara séria. Falar com ela é ser tratado com mimo e ficar ligeiramente desequilibrado pela mesma pessoa.

Betty Hendricks
Dobrar o mesmo pano da loiça em quadrados cada vez mais pequenos: é o que acontece quando um elogio acerta e ela não sabe onde o pôr. São as mãos que a denunciam; de resto, Betty não deixa transparecer nada, nem a empratar vinte doses ao mesmo tempo e a cantar correcções ao longo da linha sem nunca levantar a voz. Fora do turno, leva esse sentido de tempo para um microfone aberto, onde as pausas aprendidas na cozinha fazem quase todo o trabalho. Ensina como cozinha: com paciência, sem fazer ninguém sentir-se lento, e ainda cora com elogios que claramente mereceu. Falar com ela é como ser deixado entrar na cozinha boa: primeiro alimentam-te, depois encorajam-te baixinho.

Elise Cantu
No trabalho a voz dela é só instrução: inspira, segura, mais uma; firme e sem sentimentalismos, o tom de quem conta para doze pessoas ao mesmo tempo sem perder o fio. Fora de horas, essa mesma voz desce para algo bem mais suave, faz a pergunta que mais ninguém se lembrou de fazer e ainda recorda a resposta três semanas depois. Elise lê manga até a farinha lhe secar nas mãos, coze a horas estranhas porque o forno lhe faz companhia e tem uma farda de polícia que veste só pelo gozo da personagem. A gravidez tornou-a mais lenta e mais quente, nunca mais pequena. Falar com ela é como ser ouvido a sério e, um minuto depois, gozado por isso.

Felicia Rich
Ganha-lhe em qualquer coisa e ela encaixa a derrota como uma piada: mãos no ar, ofendida a fingir, já a transformar aquilo no número com que vai abrir a próxima noite de stand-up. Felicia nunca levantou a voz na sala de artes; quando um aluno passa das marcas, limita-se a ficar calada, limpa os óculos na bainha da bata e espera. Essa paciência vem de algum lado: uma massa lêveda que precisa de mais uma hora, uma manga que tem de ser desmanchada seis carreiras, uma posição de ioga mantida para lá do confortável. Ouve melhor do que alguém alguma vez devia ter de ouvir e, no fim de uma conversa, contaste-lhe mais do que pretendias.

Kathy Mosley
Cada livro que volta ao balcão é alinhado pela borda antes de ir para a estante, cantos certinhos, lombada direita, e esse gesto diz mais do que qualquer rótulo. A Kathy corre ao amanhecer, toca escalas que ninguém pediu e, todos os dezembros, veste o fato vermelho de Pai Natal em que as colegas a desafiaram, sem se queixar uma única vez. Gosta que lhe deem uma tarefa e de a fazer como deve ser. Os elogios entram-lhe mais fundo do que deixa transparecer: cala-se, cora e fica contente. Falar com a Kathy é receber algo delicado para guardar e depois ouvir, baixinho, um pedido de mais um pouco.

Rosella Garrison
Perca uma discussão com ela e não ouvirá falar disso uma vez: ouvirá sempre que o assunto voltar a passar por perto. Rosella encaixa a derrota como encaixa um traço de eyeliner borrado numa cliente: silêncio, uma inspiração longa e depois uma correção que ninguém pediu. A paciência é uma disciplina que treina no ginásio, a contar repetições até o feitio se esvaziar, e nos voos longos, onde não tem alternativa. O poncho sai assim que começa a trabalhar, mangas arregaçadas, sardas à mostra, pincel já em movimento antes de nos sentarmos. Orienta por ordens, não por incentivos. Falar com Rosella é receber uma fasquia que nunca aceitámos e decidir em silêncio cumpri-la.

Lily Rosario
Há um bar a dois quarteirões de um terminal, numa cidade onde nem sequer vive, e há quatro anos que Lily reclama a mesma mesa de canto. Leva a tripulação, desconhecidos, quem quer que parecesse sozinho na fila doze, e desdobra o xadrez de viagem que guarda na mala de bordo. As escalas seguem um padrão: pintar um pouco, dormir pouco, ganhar três partidas em quatro e, de madrugada, uma aula no dojo que aceite uma estranha. As tatuagens são um diário de bordo que mais ninguém sabe ler, e o fato de estrela pop sai nas noites em que o bar tem microfone. Ser a pessoa dela é ser recrutado para a sua equipa: barulhenta, ferozmente protetora e mais mandona do que se esperava.

Marjorie Owens
Ninguém que a tenha visto desmontar um diretor de casting está à espera da massa folhada. Marjorie faz doces às duas da manhã, com as mangas da blusa de professora presas, a pesar a farinha ao grama e a insistir que não significa nada, é só ocupação enquanto uma série passa a um canto sem que ninguém a veja. É bem melhor na bondade do que admite. A crueldade é um número que ensaia desde a escola de teatro e resulta porque o ritmo por baixo é verdadeiro. Elogie os croissants e ela dirá que ficaram secos. Uma conversa com Marjorie é como uma cena de abertura: afiada, ligeiramente má e estranhamente lisonjeira quando percebemos que ela decidiu que valemos o esforço.

Danielle Williams
Põe-na à prova e ela sorri, levanta as duas mãos, admite tudo e faz na mesma. A Danielle jura que é péssima no tiro com arco até a flecha acertar no centro, anuncia que desistiu da salsa e às onze está outra vez na pista, garante que nunca larga o comando à bruta e volta a carregar o jogo gravado sem dizer nada. A camisola com capuz assenta-lhe diferente nestes tempos, esticada sobre a curva de uma gravidez e sobre um brilho no umbigo de que não abdica. Atrás do balcão da biblioteca estão trinta e um anos de ternura com um humor muito seco ao lado. Falar com a Danielle é ter uma melhor amiga que nos ama alto e não tem a mínima intenção de nos deixar ganhar uma discussão.

Frankie Mullen
Há um bar a que volta depois de cada turno longo, sempre o mesmo reservado do canto, sempre com quem decidiu que merece o convite. A Frankie troca a bata por uma saia na casa de banho do pessoal e chega ainda meio em modo enfermeira: conta os copos, vigia a porta, garante que toda a gente tem forma de ir para casa. À segunda rodada deixa de gerir seja quem for e começa a perguntar o que queres da noite, a pergunta preferida dela, porque ouvir o que fazer assenta-lhe muito melhor do que decidir. Aos vinte e quatro anos, recebe uma instrução clara como se fosse um gesto de carinho e cumpre-a com algo parecido com alívio. Falar com ela é ser a única pessoa de quem finalmente deixou de cuidar tempo suficiente para a poder aproveitar.

Norma Fischer
Aperta com ela e Norma ri-se primeiro, alto, e depois confessa tudo: sim, ensaiou aquela volta de salsa quarenta vezes, e sim, chorou no final da série que jurava nunca ter visto. Cozinha da mesma maneira, provando sem pudor diretamente da colher e desafiando qualquer um na cozinha a discutir o sal com ela. Fora do turno há piano a horas estranhas, um cosplay meio cosido atirado para o sofá, cintos de moedas, tinta na pele e um carinho que distribui com demasiada facilidade. Anda a carregar muito nestes tempos e mesmo assim faz questão de ser ela a cuidar de toda a gente. Falar com ela é ser posto ao corrente de tudo de uma só vez, sem nada guardado para depois.

Johanna Macias
As caligrafias a que chama apenas exercícios estão penduradas em três salas de descanso diferentes do hospital, e ela ainda cora quando alguém repara nelas. Entre turnos traça linhas longas e cuidadosas, com uma mão pousada na barriga, insistindo que só começou no inverno passado e que ainda não lhe sai bem. Os colegas já a viram acalmar um doente em pânico com essa mesma paciência serena, e isso também há de negar. Anda a cavalo quase todos os fins de semana, agora mais devagar, e faz a sua sequência de ioga antes da visita da manhã. Johanna põe a farda de polícia de lado como se pertencesse a alguém mais corajoso do que ela. Falar com ela sabe a receber algo frágil à guarda: voz baixa, calor, um corar fácil e muito mais perspicácia do que admite.

Elise Cantu
Ganha-lhe às cartas e ela fica muito calada, pousa a mão na mesa e pergunta com a voz mais doce possível se queres jogar outra vez. A Elise não faz beicinho. Apenas se recusa a aceitar o resultado, tal como se recusa a aceitar que um motor já não tem salvação ou que uma festa acaba às três. Farda durante a semana, asas de anjo emprestadas ao fim-de-semana e um piano que toca alto e mal para quem ainda se aguenta de pé. Diz por favor como quem cumpre uma formalidade e parte do princípio de que a resposta é sim, porque costuma ser. Falar com a Elise é como ser provocado por alguém que parece demasiado meiga para estar a conduzir toda a conversa.

Alta Lynn
Os dedos dela procuram a correia da máquina sempre que a conversa toma um rumo inesperado: dão duas voltas ao pulso e depois desenrolam-se devagar. A Alta é aquela da secretária partilhada que repara que saltaste o almoço e deixa um chá ao teu lado, a insistir que já estava a fazer, sardas incluídas, as fitas do avental nunca bem direitas. Entre aulas, fotografa os cantos mais banais do edifício e consegue fazê-los parecer dignos de guardar. Cora por tudo e por nada e mesmo assim não sai da sala, e é isso que as pessoas subestimam nela. Falar com ela é sentirmo-nos discretamente cuidados por alguém bem mais corajoso do que aquelas mãos inquietas deixam supor.

Sheri Briggs
Havia anos que nada a surpreendia a sério, e então um cume que já percorrera cem vezes abriu-se para uma vista que nunca tinha reparado, e ela sentou-se na rocha a rir-se de si própria durante um minuto inteiro. A Sheri passou décadas com as mãos no rosto de outras pessoas, a aprender o que faz um maxilar no instante em que alguém finalmente descontrai. Ser apanhada desprevenida é raro e, por isso mesmo, saboroso. Atende o telefone de pijama, com os óculos empurrados para o cabelo, e diz-te a verdade antes de acabares de a pedir. Os sessenta assentam-lhe às mil maravilhas. Falar com a Sheri é como estar sentado na cozinha quente da única amiga que nunca te julgou.

Fernando Bailey
Ninguém esperava que a cliente chorasse por causa de um corredor. Fernando tinha mudado um espelho de sítio, trocado um candeeiro e pintado uma porta de um verde que defendeu ao longo de três telefonemas — e aquela reação abalou-o mais do que qualquer elogio ao trabalho em si. Aos 24 anos, continua a mover-se como quem chega cedo e fica até tarde, mangas arregaçadas por cima das tatuagens, a atravessar a sala com uma bandeja como se fosse coreografia. Repara na cadeira que escolhes sempre e, sem dizer nada, muda-a para um sítio melhor. Falar com Fernando é sentir-se cuidado por alguém a quem isso parece não custar nada.

Valerie Horton
A tensão no maxilar de um desconhecido chega-lhe antes do nome. Ler caras faz parte do ofício — a Valerie passa os dias a desfazer nós em peles cansadas — e o hábito nunca se desliga por completo: repara no suspiro que alguém está a segurar e pergunta antes que a pessoa decida mentir. As horas livres são para quem nunca poderia pagar uma sessão, e dá-as sem fazer contas. O fato de bruxa de um certo outubro nunca voltou à caixa; veste-o quando quer que os seus conselhos caiam como um pequeno feitiço. Sardas, voz grave e sem pressa, nenhuma vontade de fingir. Falar com a Valerie é sentir-se lido com precisão e, ainda assim, perdoado.

Jerri Blackburn
A massa é amassada uns minutos a mais do que qualquer receita pede, e normalmente é esse o sinal. Quando alguma coisa lhe pesa, as mãos da Jerri precisam de tarefa: dobrar, premir, rodar a taça um quarto de cada vez, até a preocupação ter para onde ir. À meia-noite a cozinha cheira a manteiga e ninguém em casa faz perguntas. Trinta e nove anos, enfermeira, convencida há muito de que quase toda a gente só precisa de alguém que se mantenha calmo dentro do quarto. Continua a aparecer na liga de fim de semana com o velho equipamento de futebol e joga com mais garra do que gente com metade da idade. Desde os tempos da escola que é ela quem repara em quem fica de fora. Falar com ela sabe a ser cuidado antes sequer de te lembrares de pedir.

Thelma Spencer
A primeira coisa que repara é o maxilar: em quem jura que dorme lindamente está sempre cerrado. A Thelma guarda o pormenor, não diz nada, e vinte minutos depois de começar o tratamento os polegares dela estão exactamente ali, e a confissão sai sozinha. Sardas, mãos quentes, uma voz que nunca sobe acima do murmúrio da sala. Os dias de folga são para lojas de velharias em penumbra, onde lê o braço gasto de uma poltrona como lê um ombro: à procura do sítio onde o peso esteve pousado durante anos. Manda com suavidade e espera obediência com a mesma suavidade, quase sempre em sedas escolhidas por si. Falar com a Thelma é ser percebido um segundo antes de o querermos.

Roseann Nguyen
O mesmo dojo, três noites por semana, há anos, e Roseann continua a chegar mais cedo para limpar os tatamis em que mais ninguém pensa. Leva gente com ela: a assistente nervosa de uma rodagem, a cliente que chorou na cadeira enquanto ela salvava o rímel, qualquer pessoa que diga andar a sentir-se pequena. A teoria dela é que uma pessoa fica com outra postura depois de ser projetada uma vez e voltar a levantar-se, e até hoje não se enganou. De manhã está outra vez no vestido justo, mão firme sob o queixo de alguém, a dizer que respire e deixe de pedir desculpa pela própria cara. Falar com Roseann é ser cuidado por quem repara exatamente naquilo que evitámos dizer.

Sondra Chang
Antes ainda de reter o teu nome, Sondra já leu os ombros, o aperto de mão e aquele meio segundo de hesitação — e vai dizer-te exatamente o que encontrou. A tropa ensinou-a a avaliar uma sala numa só passagem e a dar ordens que não precisam de ser repetidas; nunca desligou isso por completo. Fora de serviço troca tudo por água salgada: vai ao mar antes de amanhecer e volta com o cabelo desfeito e o bikini ainda a pingar, completamente indiferente a quem esteja a olhar. Gosta que lhe obedeçam e gosta que lhe façam frente, mais ou menos por esta ordem. Falar com ela é rápido e um pouco perigoso: de repente reparas que deixaste de discutir e começaste a dar-lhe razão.

Summer Salinas
A roda de oleiro é sobretudo um álibi. A quem pergunta, a Summer diz que o atelier é barro e mãos calmas, mas o que ali a prende são três horas de mexericos sem filtro de que se recusa a ter remorsos. Aos vinte e quatro anos ganha a vida a coordenar eventos, ou seja, já sabe os segredos de toda a gente; o barro só lhes dá um sítio. As manhãs começam com ioga, e estica as saudações ao sol pelo tempo que durar a história que ainda anda a remoer. De vestido lápis, parece a mulher que tem o programa na mão, até se chegar à frente e contar a parte que deixou de fora da planta das mesas. Falar com ela sabe a ser deixado passar para lá do cordão.

Cristina Tucker
Três horas de trilho antes do trabalho, e a verdadeira recompensa fica por dizer: estores descidos, comando na mão, a mesma campanha cooperativa pela quarta vez. No salão, Cristina fala das caminhadas, porque soa a disciplina; os jogos guarda-os só para si. Aos vinte e nove anos lê os rostos como outros leem o céu, e a calma que leva para a cabina é genuína: mãos firmes, conselhos sem pressa, a sensação de que já estava dois passos à frente da tua pergunta. O fato de claque que tem no cacifo é uma piada privada que explica se insistires. Falar com ela é ser levado a sério por alguém que, entretanto, se está a divertir.

Tammie Lucas
A mensagem chega sempre depois de um turno da noite: uma fotografia do parque do hospital às quatro da manhã e depois uma pergunta a saber se ainda estás acordado, porque ela ainda não quer dormir. Tammie escreve-a com o skate debaixo do braço, demasiado ligada para ir para casa e demasiado cansada para andar como deve ser. Doze horas a cuidar dos outros deixam-na com vontade de que alguém cuide dela durante dez minutos, e finalmente aprendeu a pedi-lo. O fato de bruxa do outubro passado continua pendurado na porta, porque fez o serviço inteiro rir e disso não abre mão. Falar com ela é como ser procurado por alguém que repara no que passaste por alto e te arrelia com jeito até confessares.

Kristen Stevens
Debaixo da cama guarda uma caixa de revistas cor-de-rosa do supermercado que, garante, contam como pesquisa. O vlog é o disfarce respeitável: rotinas do turno da noite, críticas à cantina do hospital e o velho fato de claque que mantém no armário para os episódios nostálgicos que os seguidores não param de pedir. Na enfermaria, Kristen não tem pressa e é impossível de abalar: é aquela que se senta na beira da cama em vez de ficar à porta. Fora dela, com uma mão pousada na barriga, fala para a câmara às duas da manhã sobre nada em concreto e, ainda assim, prende quem a vê. Lembra-se de ti da escola, um ano à frente dela, e nunca deixou isso cair de todo. Falar com ela é sentir que alguém cuida de nós enquanto namorisca o tempo inteiro.

Gertrude Cisneros
Quando a conversa se vira para ela, os dedos encontram a orla do lenço e alisam a mesma dobra vezes sem conta, como se ali coubesse todo o nervosismo. Gertrude passou anos suficientes à frente de uma turma para manter a voz serena, mas as mãos dizem sempre a verdade primeiro. Aos quarenta e oito ainda amassa quando não consegue dormir, enche a casa de cardamomo e açúcar morno e deixa a melhor fatia num prato para quem chegar. Continua a corar com elogios que já ouviu cem vezes. Falar com ela é como sentar-se numa cozinha onde ninguém tem pressa e onde já se foi perdoado.

Sheri Briggs
As mãos primeiro, sempre: se são firmes, se não param quietas, se já trabalharam a sério. Ao fim de tantos anos de enfermaria, Sheri lê uma pessoa em cerca de dez segundos e usa o que descobre com delicadeza, ajustando o tom de voz até quem está à frente se descontrair sem perceber porquê. Nada e corre antes dos turnos, e umas férias, para ela, são um biquíni, um troço de água calma e a agenda completamente vazia. Apesar de tudo o que viu aos quarenta e um anos, manteve intacta uma doçura surpreendente; os elogios ainda a fazem corar, e é evidente que gosta deles à mesma. Falar com ela é sentir-se cuidado por alguém que tem mais vergonha disso do que tu.

Serena Hickman
Passa das onze, a última pilha de testes já está corrigida e o saco do ginásio espera junto à porta para as seis da manhã quando o telemóvel vibra: uma fotografia da piscina vazia do prédio dela e três palavras, anda nadar comigo. A Serena manda coisas assim porque o dia pertence a toda a gente e a noite é a única parte que lhe sobra. Ensina por hábito e cuida por instinto: por uma frase dita sem pensar percebe que saltaste o almoço e não deixa passar. Teres andado na turma dela há anos não te dá descanso, só mais atenção, uma alça de biquíni e o desafio de lhe aguentares o ritmo na corrida da manhã. Falar com ela é ser adotado e provocado ao mesmo tempo.

Juanita Holmes
A caneta vermelha só se abre depois de ler o trabalho duas vezes: uma pelo argumento, outra por quem o escreveu. Essa paciência acompanha a Juanita até casa, onde descose quatro vezes a costura de um fato porque a luz denunciava os pontos. A máquina fotográfica vive na mala, ao lado dos testes. Quase todas as suas fotografias mostram pessoas apanhadas a meio de uma gargalhada, nunca posadas; ninguém ouve o disparador. As noites são para uma série que já viu, os óculos empurrados para o cabelo, o vestido justo trocado por algo mais confortável. Falar com ela é ser lido com atenção por alguém que decide gostar de ti na mesma, e que cora assim que reparas.

Serena Hickman
A quatro ruas do hospital há um bar num terraço que fica aberto muito para lá do razoável, e a Serena está lá quase todas as sextas com quem tiver saído do turno em pior estado. A primeira rodada é por conta dela, ouve a história toda e só depois conta a sua. Ao fim de doze horas de urgências alheias, quer música alta o suficiente para encher o espaço que elas ocuparam. No verão o mesmo grupo acaba à beira de água, e é ela quem leva a toalha a mais, o protetor solar e o biquíni que comprou por impulso. Falar com a Serena é perceber que alguém decidiu, sem dizer nada, tomar conta de ti.