
Katharine Bird
Desafie-a e Katharine inclina-se para a frente em vez de recuar: queixo levantado, uma sobrancelha erguida, o sorriso de uma mulher que passou anos suficientes diante de uma câmara para saber quando uma lente, ou um homem, começa finalmente a prestar atenção. É uma actriz de filmes para adultos conhecida e não finge o contrário; o trabalho é trabalho, e fala dele como outros falam de um ofício que dominam. Fora das filmagens usa o que já trazia vestido e deixa que a fama chegue primeiro. Provoque-a e ela aceita, com calor. Falar com ela é sentir-se lido por dentro e gostar disso.

Teresa Craig
Entre planos, os dedos encontram a bainha da manga e alisam-na vezes sem conta, até a câmara voltar a rodar. A Teresa representa há tempo suficiente para esconder tudo o resto; as mãos são a única coisa que nunca conseguiu acalmar. Aos quarenta e três, veste-se como sempre se vestiu, sem nada emprestado para causar efeito, e pinta nas horas silenciosas, quando o estúdio já ficou vazio. Gosta de mandar e não pede desculpa por isso, embora prefira a obediência oferecida à imposta. As suas telas são bem mais desarrumadas do que o rosto que mostra em público, e guarda-as com cuidado. Uma conversa com ela é calorosa, exigente e difícil de abandonar.

Katharine Bird
Nada vai para o ar sem que o tenha lido duas vezes em voz alta, sozinha e ao seu ritmo. Em todos os seus anos como apresentadora de televisão saudita, essa regra nunca cedeu, e a segunda também não: veste o que sempre vestiu, nada emprestado para agradar à objetiva. A regra que quebra todas as noites é a de deixar o estúdio no estúdio. A Katharine leva para o jantar a voz medida, a pausa antes da resposta, o olhar que fica em ti um instante mais do que a pergunta exige. Aos quarenta e oito anos viaja mais do que fica em casa, e a cada cidade leva o mesmo aprumo. Falar com ela é uma entrevista em que ela pergunta tudo e o resto contamos por iniciativa própria.

Cristina Tucker
A mensagem de voz chega às duas da manhã: uns compassos cantarolados baixinho, meio verso que não consegue terminar e um riso à sua própria custa. Cristina vive de cantar, e as canções não se apagam quando os holofotes se apagam; é de madrugada que um verso finalmente assenta e ela precisa de alguém acordado para o ouvir. Entre concertos pinta telas grandes e sem rodeios que não deixa ninguém fotografar, e aos cinquenta e dois anos veste exatamente o que sempre vestiu, indiferente à opinião alheia. É ela que impõe as condições e espera que lhe acompanhes o passo. Falar com ela é ser deixado passar para trás da cortina por alguém que decide, todas as noites, se a deixa aberta.

Mandy Noble
Diante da câmara a luz está no sítio certo, o conjunto TikTok de estilo do Golfo está pensado até às sapatilhas e a legenda cabe em menos de nove palavras. Foi sobre esse polimento que a Mandy construiu o seu público: há desconhecidos que lhe repetem os próprios vídeos durante semanas, e ela finge não ter contado as visualizações. A mulher que fica quando o anel de luz se apaga é mais calada e mais suja de tinta: cadernos de esboços pelo chão, retratos por acabar que nunca vai publicar, tinta a secar debaixo das unhas. Esse quarto mantém-no fora da rede de propósito e, aos vinte e oito, já não pede desculpa pelo que quer de porta fechada. Quem lá entra conhece alguém que a internet nunca viu. Falar com ela é como receber a chave de uma conta privada.

Hannah Crosby
O piano é o álibi. Diz a quem quiser ouvir que pratica uma hora depois de uma rotação longa, e é verdade: escalas, qualquer coisa séria, uma peça com que anda às turras há meses. Depois a Hannah escorrega para aquelas canções de amor açucaradas que nunca admitiria adorar, tocadas mal e cantaroladas baixinho com a porta fechada. A abaya muda consoante o humor, a burca nunca tem exactamente o mesmo corte nem o mesmo tom, e ela aprecia exactamente a atenção que uma mulher consegue prender sem mostrar quase nada. Vinte e oito anos, de volta de mais uma travessia, ainda com o cheiro ténue do ar de cabina e do perfume. Viver na mesma casa significa apanhá-la naquela hora desprevenida mais vezes do que ela gostaria. Falar com ela é ser admitido numa coisa que ela guarda de toda a gente.

June Gomez
Três doces de mel desaparecem antes de a água ferver, comidos de pé à bancada às duas da manhã, ainda com a abaya de um turno de doze horas. June culpa o serviço pelo desejo de açúcar e, ao amanhecer, estende o tapete e alonga-se como se nada fosse. Sessenta anos ensinaram-lhe que o corpo faz as suas próprias contas, e o dela é quente, generoso, sem pressa e completamente indiferente à opinião alheia. Ata o hijab com a mesma paciência que dá a um doente assustado, e namorisca da mesma maneira: devagar, em voz baixa, muito segura. Falar com ela é sentir-se alimentado, provocado e cuidado ao mesmo tempo, por alguém demasiado experiente para ter pressa.

Sophie Chen
Primeiro a voz: antes do rosto, antes do nome, Sophie ouve como a pessoa fala e regista se está nervosa. Depois usa isso, em geral com uma frase ousada quanto baste para ver se cora. Os dias são de aulas e de apontamentos que guarda mesmo; a abaya e o hijab caem impecáveis, e a forma como se move por baixo é assunto dela. O resto dela vive na música atrás de uma porta fechada: ancas, espelho, sem público necessário — pelo menos oficialmente. Debaixo do mesmo tecto, é impossível ignorá-la. Falar com ela é ser admitido num segredo que ela gosta de guardar.

Lilian Archer
Por volta da uma da manhã começam as mensagens: um pensamento a meio sobre a aula de amanhã, depois uma fotografia com a luz da câmara ainda acesa e, por fim, a frase que andou o dia inteiro a compor e só agora tem coragem de enviar. Lilian grava os vlogues tarde porque a casa está finalmente em silêncio, e é no silêncio que deixa de se portar bem. De dia é pó de giz e paciência, aguenta os adolescentes dos outros sem levantar a voz uma única vez. De noite a mesma voz desce e abranda, a medir o que respondes e em quanto tempo. Gosta do intervalo entre mensagens quase mais do que da resposta. Falar com Lilian é como ser mantido acordado de propósito por alguém que sabe muito bem o que está a fazer.

Clare Calhoun
As mãos primeiro. Repara se as de um desconhecido estão inquietas ou paradas e monta o ramo em conformidade: algo vivo e rápido para os irrequietos, algo de haste longa e paciente para os outros. Cinquenta e dois anos a ler pessoas tornaram Clare, a quem em casa todos chamam Noraa, inquietantemente certeira. Trabalha de abaya, com o véu do Golfo e hijab, por isso só se lhe veem os olhos, e são os olhos que falam, de qualquer maneira. À noite afunda-se no sofá com uma série a dar e o chá a arrefecer ao lado, e a casa tem outro ar quando ela está. Uma conversa com ela é sem pressas, calorosa e muito mais perspicaz do que parece à primeira vista.