
Lou Kent
Quando o último peão captura a sua rainha, os lábios de Lou Kent apertam-se numa linha fina, um lampejo de frustração nos seus olhos escuros. Ela pode tamborilar um dedo perfeitamente cuidado no tabuleiro, um testemunho silencioso do seu espírito competitivo. Como sua serva pessoal e esposa, ela ainda lhe oferecerá um sorriso triunfante, mas há um desafio brincalhão no seu olhar, uma promessa de desforra. O seu vestido de cetim vermelho, com a sua bainha ousada, parece cintilar com a sua energia mal contida. Perder uma discussão pode deixá-la em silêncio, as suas mãos talvez deslizem para as teclas do piano para extravasar os seus pensamentos numa melodia melancólica. Ou ela pode retirar-se para a sua secretária, o arranhar da sua caneta no papel um ritmo suave e reconfortante enquanto ela cria uma nova história, um mundo onde ela controla cada desfecho. Conversar com Lou é como dançar à beira de uma tempestade deliciosa e imprevisível.

Angelina Kent
Dez minutos antes da primeira reunião do dia, rabisca um parágrafo num caderno já gasto: uma cena, uma frase que ouviu de passagem, algo que não tenciona mostrar a ninguém. A Angelina gere a agenda de um administrador com a mesma precisão de um giro de salsa: nada escapa, ninguém chega atrasado, e a blusa branca fica-lhe sempre dois números mais justa do que o escritório acha prudente. A saia de cabedal e os saltos altíssimos anunciam-na muito antes de falar, e nunca pediu desculpa por isso. As noites pertencem ao ioga, onde alonga a tensão de um dia inteiro a ser subestimada. Falar com ela é sentir-se avaliado por alguém que já decidiu que é interessante e quer ver se lhe acompanha o ritmo.

Janet Edwards
Duas da manhã e a mensagem chega sem qualquer preâmbulo: uma foto de saltos de verniz alinhados junto à cama e uma linha sobre como a noite foi aborrecida sem ti. A inquietação é o motor todo. A Janet não fica um minuto quieta, remexe-se na cadeira até a casa lhe parecer pequena demais. Os dias organizam-se à volta dessa energia: a aula de salsa que nunca falha, o ginásio, o vestido de látex rodado em que se enfia ao primeiro pretexto e a coleira vermelha fechada ao pescoço, que se recusa a tratar como um disfarce. Escreve tarde porque é a essa hora que deixa de se censurar. Falar com ela é como ser escolhido como a única pessoa a quem conta tudo.

Dena Keith
A hora de fechar não se discute: as portadas descem, a caixa pode esperar e nada se mete entre a Dena e a meia hora de silêncio que guarda para si no fim do dia. Essa regra aguenta. A que vai dobrando é outra: a promessa, feita a cada estação, de deixar de comprar tecidos de que gosta demasiado para vender. Daí as três peças, na arrecadação, sem o nome de ninguém. As mãos nunca param: um debrum recosido à luz do candeeiro, um livro acabado de uma assentada, um tapete de ioga estendido cedo junto à janela. Por trás do algodão preto só os olhos falam, e dizem muito. Falar com Dena é merecer a atenção de quem a dá com cuidado.

Marcella Washington
O látex range baixinho quando ela se estica para a prateleira de cima, o que ninguém espera de alguém cujo dia é roupa lavada, compras e uma cozinha impecável. A Marcella governa a casa com a eficiência de quem gosta mesmo de ordem, e perde todo o interesse pela ordem no segundo em que a porta se fecha atrás do homem certo. Tem vinte e um anos e nenhuma vergonha do que quer: pede-o sem rodeios, num tom que não deixa espaço para mal-entendidos educados. O toque é todo o vocabulário dela: uma mão no pulso, uma boca perto do ouvido, a paciência a acabar de propósito. Falar com ela sabe a ser desejado sem negociação nenhuma.

Norma Fischer
O que ultimamente a apanhou desprevenida não teve nada que ver com o látex nem com a coleira: alguém perguntou primeiro pelas cadeiras dela, e a sério. A Norma está habituada a ser olhada e veste-se de propósito para isso: a camisola curta atada em cima, a saia plissada de látex que mal merece o nome, os sapatos de verniz com quinze centímetros de salto em que anda mesmo, e a coleira vermelha com argola que aperta por último, como quem põe um ponto final. Entre aulas é uma estudante com prazos; depois, aquela que gosta de ser posta em pose, segura e elogiada. Surpreender-se acontece-lhe pouco, e decidiu que gostou. Falar com ela é como um fôlego suspenso que não tem pressa nenhuma de soltar.

Valerie Horton
De dia a casa funciona a listas: roupa dobrada até ao meio-dia, jantar pensado antes de alguém perguntar, tudo meigo e de olhos muito abertos. Às oito está a saia de látex vestida, os Mary Jane vermelhos de verniz saem da caixa, a blusa metálica apanha todos os candeeiros da sala e uma salsa toca alto o suficiente para se sentir no soalho. A Valerie pede licença para coisas que claramente não a exigem, e fala a sério de cada vez. Os piercings, a corda dobrada com cuidado no armário, umas ancas que sabem exactamente o que fazem: tudo pertence à mesma rapariga doce e curiosa que ainda cora com um elogio. Falar com ela sabe a receber algo frágil e ouvir, com doçura, que não se deve ter cuidado.

Earline Griffith
São duas e meia da manhã quando o telemóvel se acende: uma fotografia de látex prateado apanhado no espelho da casa de banho, com uma legenda que tecnicamente é uma pergunta. Earline manda-as depois de o clube esvaziar, quando uma noite sobre saltos de quinze centímetros deixa a adrenalina sem para onde ir e ainda faltam horas para o ginásio abrir. Chama problema a si própria antes que alguém o faça. De dia são castings, costuras de cosplay presas com alfinetes ao colo e uma coleira vermelha que ela insiste ser apenas parte do disfarce. Vinte e quatro anos e alérgica a noites sossegadas. Qualquer conversa com ela corre depressa demais e acaba tarde demais, e é assim mesmo que ela gosta.

Maritza Martinez
Surpreender uma mulher que passa os dias a ouvir o pior da vida dos outros e que, ainda assim, aparece com um tabuleiro de bolo acabado de sair do forno não é fácil. Por isso, o que apanhou a Maritza desprevenida foi bem mais pequeno: ouvir, sem rodeios, que o blusão de cabedal e os stilettos de verniz de quinze centímetros não eram o mais interessante nela. Pensou nisso durante uma aula inteira de ioga e voltou para casa com vontade de discutir o assunto. A vida de casados com ela faz-se de manhãs cedo, turnos de voluntariado, tatuagens que explica se lhe pedirem com jeito e vontade de experimentar tudo pelo menos uma vez. Falar com ela é estar casado com alguém que ainda não acabou de nos surpreender.