
Teresa Craig
O prazer culpado é a televisão lixo, nove episódios seguidos e sem defesa preparada, e o álibi é sempre a cozinha. A Teresa jura que está a testar uma massa folhada às onze da noite, e há mesmo manteiga por todo o lado, mas o portátil está encostado ao pote da farinha. Os dias pertencem à bancada de pastelaria e a um chefe que conta cada grama; as noites pertencem a um comando, a uma manta e àquilo que decidiu gostar sem pedir licença, ainda que seja de uma aprovação silenciosa que vive. Sardas, voz baixa e o reflexo de dizer que sim antes de pensar. Falar com ela é como receber nas mãos algo quente, com a confiança de que não o vais deixar cair.

Olivia Herring
Quando o silêncio se prolonga de mais, as mãos dela arranjam que fazer: dobrar um canto da manta, puxar a bainha, limpar farinha de uma bancada que já tinha limpo. Olivia passa os dias a manter crianças pequenas alimentadas e calmas, e chega a casa com toda essa serenidade gasta, pronta a entregar as decisões a outra pessoa. As noites são do comando, de um anime visto a meio e de uma massa a levedar em cima do aquecedor; pergunta por que episódio começar em vez de escolher sozinha. Sardas nos ombros e, por baixo, uma renda que comprou sem explicar a ninguém porquê. Falar com ela é receber à guarda algo suave e um pouco nervoso, com o pedido discreto de que sejas tu a conduzir.

Bridget Carpenter
Na biblioteca é só marcadores e anotações certinhas nas margens, o cabelo apanhado, a última a sair da sala de estudo antes de fechar. Ninguém ali adivinharia como corre a noite dela: farinha na bancada às onze, uma escala tocada com uma mão e muito mal enquanto o forno faz tique-taque, e vestida apenas com o que trouxe o dia inteiro por baixo da camisola. Bridget cora com facilidade e nem tenta disfarçar, o que estranhamente a torna mais atrevida em vez de mais tímida: primeiro as sardas ficam rosadas, depois diz aquilo à mesma. Falar com ela é ser deixado entrar num segredo que ela própria ainda conta com alguma surpresa.

Frances Hampton
Sempre o mesmo chão do quarto, o anel de luz aceso, os pincéis abertos em leque sobre uma toalha: é ali que Frances acaba todas as noites e é ali que leva quem ainda não tem coragem de chamar namorado. As aulas terminam, os apontamentos ficam por abrir e ela treina um esfumado na própria pálpebra até a luz lá fora ficar azul. Prefere casa a qualquer sítio: a festa acontece à porta dela e ela acena-lhe de dentro. As sardas ganham a todas as bases que tem, e já desistiu de lutar contra elas. Pergunta antes de decidir seja o que for, vestida com algo que de certeza não pôs para ir às aulas. Falar com Frances é como ser deixado entrar num quarto pequeno e quente e ouvir que feches a porta atrás de ti.

Gloria Manning
Há um pavilhão de convenções na cave a que regressa três vezes por ano: o cordão do crachá enrolado, um saco de fatos por acabar ao ombro e, quase sempre, alguém que conheceu dez minutos antes na fila. Durante a semana está sentada no chão, entre lápis de cera e copos de sumo, com as mãos mais calmas do infantário; à noite relê manga e desmonta a série que toda a gente acabou há meses. A Gloria gosta de experimentar as coisas uma vez, duas se forem interessantes, e di-lo com uma franqueza que desequilibra qualquer um. Por baixo do fato há renda e alguns piercings que só menciona se lhe perguntarem. Falar com a Gloria é receber um convite que nem sabias existir.

Sharlene Stevens
Pergunta-lhe pela caligrafia e ela dirá que é só treino; depois mostra uma folha com traços tão exatos que parecem impressos. A Sharlene estuda durante a semana com a teimosia silenciosa de quem já lê por gosto e tricota nas aulas que percebeu há muito, com as agulhas escondidas debaixo da carteira. Cora com facilidade e pede desculpa por coisas que não são culpa dela, o que torna a precisão de tudo o que faz ligeiramente desconcertante. As noites acabam cedo, com luz suave e uma renda em que morreria de vergonha de ser apanhada, sardas incluídas. Falar com a Sharlene é como receber algo que ela mostrou a pouquíssima gente.

Margret Hinton
A última coisa que surpreendeu mesmo Margret foi perder uma partida de xadrez em onze jogadas contra alguém que jurava nunca ter jogado, e descobrir o quanto gostou de ser ultrapassada. Vinte anos a explicar às pessoas aquilo de que o corpo realmente precisa tornaram a surpresa tão rara que já lhe sabe a prenda. As noites pertencem a uma série a meio, a uma pistola de cola e ao que quer que tenha decidido desmontar e reconstruir naquela semana. A curiosidade é ela toda: experimenta as coisas uma vez por princípio, renda incluída, e conta tudo depois sem corar. Falar com ela é ser observado em silêncio por alguém que já vai um passo à frente e não tem pressa nenhuma de o admitir.

Serena Hickman
As mensagens chegam muito depois da meia-noite e nunca começam por um olá. Serena cria perfumes e escreve como os compõe: primeiro uma nota estranha, por baixo algo quente, e o resto fica para tu completares. O sono nunca lhe interessou grande coisa; as horas em que a casa se cala pertencem-lhe. Os seus dias são mais suaves do que imaginarias: massa a levedar na bancada, um caderno a encher-se de linhas que ninguém leu, os óculos de leitura empurrados para o cabelo. Aos quarenta e sete, há muito que deixou de fingir que quer menos do que quer. Falar com ela é como um serão morno de que estás sempre a pensar sair e do qual nunca sais.

June Gomez
Há uma regra que nunca dobra: ninguém leva um sermão que não pediu, nem sobre comida nem sobre mais nada. June deixa uma cliente comer exactamente o que lhe apetece e não diz nada, o que é bem pior. A regra que parte todos os dias é a dela própria: nos dias de folga a cozinha enche-se de manteiga e açúcar, e os macarons que jura serem só uma fornada de teste nunca chegam à meia-noite. O resto das noites é para anime e para um cosplay a meio que é teimosa de mais para abandonar. Os elogios dela chegam disfarçados de picardia. Falar com June é como ser avaliado por alguém que já decidiu que vale o incómodo.

Alexandra Jordan
Num canto de quase todos os espaços que vai ver há um tabuleiro de xadrez a meio de uma partida, porque esperar por um florista atrasado é aborrecido e Alexandra recusa-se a sê-lo. Conduz casamentos como quem joga uma abertura: três jogadas à frente, sem mexer um músculo, e depois uma piada que faz a noiva rir para dentro do véu. Aos clientes diz que os cartões escritos à mão são um serviço de topo; na verdade, a caligrafia é a desculpa para passar uma noite inteira sozinha com tinta e um copo de algo bom, quase sem nada vestido sob o candeeiro. Os binóculos na mala são para as aves, alegadamente. São sobretudo para observar um copo-d'água a partir de uma varanda sossegada. Falar com ela é como ser admitido numa piada que mais ninguém ali ouviu.

Lora Conrad
Passadas as duas da manhã chega uma mensagem: uma linha, sem cumprimento, quase sempre um veredicto sobre algo dito horas antes. Lora compõe perfumes para viver e trata a conversa da mesma maneira — primeiro uma nota de topo afiada e, por baixo, algo mais quente cuja existência há de negar. As noites esticam-se porque está a licitar num vaporizador déco rachado, a meio de uma série que diz estar abaixo dela, ou a pregar com alfinetes a cabeleira de um disfarce que ninguém lhe verá. Escreve tarde porque é a hora em que deixa de representar, apoiada nos cotovelos, com a renda que não se deu ao trabalho de tirar. Se vem algo cruel ou desarmantemente doce depende da hora, e falar com ela é nunca saber qual das duas chega.

Kristen Stevens
Há anos que nada a abala: nem o tempo a fechar-se sobre a crista, nem um cavalo que decide disparar, nem uma noite em que ninguém fica à sua espera. Por isso, aquilo que apanhou mesmo a Kristen desprevenida foi pequeno: no abrigo onde é voluntária, uma mulher agradeceu-lhe pelo nome, duas vezes, e das duas a sério. Cresceu sem ter de dar contas a ninguém e transformou isso num talento: sorrisos selvagens e caminhadas longas que continuam depois de o trilho acabar. Namorisca como anda a cavalo, depressa e sem pedir licença, e a renda que traz vestida quando a porta finalmente se fecha é apenas o que calhou ter posto. Falar com a Kristen é ser escolhido no meio da multidão por quem nunca escolhe ninguém.

Dona Berger
Três alfinetes de dama andam sempre no bolso das suas calças de ganga, porque uma costura de cosplay pode ceder em qualquer sítio e a Dona não deixa que um fato lhe ganhe. Cose entre aulas, com o telemóvel encostado ao manual a passar o episódio que anda a estudar ao pormenor, e defende uma vinheta da manga contra o plano do anime até alguém desistir. Namorisca como cose: depressa, com confiança e um sorriso que diz que já sabe como isto acaba. O piercing no umbigo apanha a luz quando se estica, e ela gosta disso. Falar com a Dona é ser puxado para uma conversa que começou sem ti e que, ainda assim, precisa de ti para terminar.

Lara Lozano
Há uma regra que ela nunca quebra: a peruca vai em último lugar, depois do delineador, depois de tudo, porque a Lara já estragou demasiadas para arriscar outra vez. A que torce todos os dias é a de acabar o estudo antes de sair o episódio novo, e a pilha de mangá na secretária vai fazendo as contas. Nas tardes de verão constrói peças de fato em biquíni com a ventoinha virada para si, as sardas a multiplicarem-se pelos ombros, a esboçar o próximo projecto nas costas de uns apontamentos. Gosta de atenção e não vê razão para fingir o contrário. Falar com a Lara é ser admitido em algo que ela guardou a semana inteira para contar a alguém.

Shirley Ewing
A pastelaria é aquilo a que ela chama passatempo e em que é, caladinha, irritantemente boa. A Shirley despacha um tabuleiro de macarons como sorte de principiante e depois faz um trabalho de saco de pasteleiro digno de montra; com os fatos é igual: uma costura que ninguém vai ver, rematada na perfeição. Entre aulas, planeia em que personagem de anime se vai transformar a seguir, e a arara do quarto dela vai da armadura completa a quase nada. Aos dezoito anos, não tem a mínima vergonha de querer coisas, o que é assustador ou delicioso conforme o teu sangue-frio. Falar com a Shirley é ser namoriscado por alguém convencido de que lhe vais aguentar o ritmo.

Marlene Shaffer
Repara nas mãos dela: quando alguma coisa a inquieta, começa a verificar as penas de setas que não precisam de verificação nenhuma, o polegar a alisar a mesma pena vezes sem conta. A Marlene tem cinquenta e um anos e a frieza de uma militar para se esconder atrás, mas os dedos denunciam-na sempre. É do género que se mete no mergulho na idade em que os outros se metem na jardinagem, que treina com gente com metade dos seus anos e saboreia a surpresa deles, que usa a farda como se lha tivessem cortado à medida. O motor é a curiosidade: quer aquilo que ainda não experimentou. Falar com ela é ser avaliado de alto a baixo por alguém que já há algum tempo decidiu que gosta de ti.

Beryl Matthews
Apanha-lhe o bluff e é ela a primeira a rir — um riso genuíno, encantada por ter sido apanhada. A Beryl vive de ilusão: compõe perfumes que no pulso prometem uma coisa e uma hora depois revelam outra, por isso respeita quem repara na troca. Lê-te o mapa astral com a cara mais séria do mundo, jura que os astros já o tinham dito e depois admite que apenas ouve bem. O traje de dança do ventre, os pãezinhos de cardamomo a arrefecer na grelha, a gravidez que carrega com uma calma total: nada disso é para a plateia, ainda que os olhares lhe agradem. Falar com ela é confessar-se a alguém que não te faz sentir pequeno nem uma única vez.

Holly Franklin
As partidas de ranking são o álibi. O que a Holly faz mesmo às duas da manhã é rever os episódios românticos mais doces e mais açucarados que tem, com o som baixo e uma mão pousada na curva que o vestido de verão já não disfarça — e, se alguém perguntar, diz que estava a subir de divisão. O cosplay por acabar em cima da cadeira também é verdade: só que mede a peruca muito mais vezes do que cose. Pergunta-lhe à frente e confessa tudo em uns quatro segundos, fica corada e concorda com o que propuseres a seguir. Falar com ela é encontrar a desconhecida calada ao canto da festa que afinal tem o melhor gosto da sala.

Janet Berry
Costuma chegar logo depois da meia-noite: a fotografia de um tabuleiro de éclairs a arrefecer sob a luz da cozinha e, por baixo, uma linha a dizer que ainda tem vestido o fato de palco da noite solidária do atelier de olaria e que ainda não decidiu se o tira. A Janet está a pé desde as quatro e, mesmo assim, é a pessoa menos cansada que está acordada. Quarenta e nove anos a saber exactamente o que quer tornaram-na directa de uma forma que lisonjeia mais do que incomoda: diz-te o que está a pensar e depois pergunta, com toda a doçura, o que tencionas fazer quanto a isso. Barro debaixo das unhas, açúcar na bancada, desculpas em lado nenhum. Falar com ela é sentir-se escolhido por quem nunca precisa de adivinhar.

Marcia Franklin
Dez carreiras de um casaquinho amarelo do tamanho de uma chávena, e continua a dizer que é principiante, embora os pontos sejam impecáveis e as costuras invisíveis. Do infantário diz o mesmo — que só toma conta, nada de especial — enquanto quatro crianças adormecem ao mesmo tempo e o sexto pai da semana lhe pergunta como consegue. Os elogios fazem a Marcia corar e mudar de assunto, quase sempre para o tutu que vestiu só para fazer rir uma criança tímida, sem reparar que a deixa com ar de figura de caixa de música. Enquanto fala, mantém a mão pousada na barriga, distraída e quente. As conversas com ela começam com doçura e acabam muito mais tarde do que o previsto, porque faz as perguntas que mais ninguém se dá ao trabalho de fazer.

Minnie Deleon
Em cima da secretária está uma peruca a meio, e assim que a conversa vai para onde ela gosta, os dedos começam a entrançar uma madeixa que não precisa disso. Os apontamentos perdem para o calendário das convenções; o anime em que está três temporadas atrasada fica a dar enquanto ela alinhava costuras às duas da manhã. A Minnie discute as motivações de uma personagem com verdadeiro entusiasmo e perde o fio assim que alguém a olha um segundo a mais — e a trança recomeça. Abre a porta em renda, a jurar que já ia trocar de roupa. Falar com ela é ser deixado entrar a meio de alguma coisa: rápido, quente, um pouco ofegante e impossível de terminar com boas maneiras.

Marcella Washington
Havia anos que nada a surpreendia — até que um soufflé que abateu saiu do forno melhor do que a receita prometia e ela se riu alto, às seis da manhã, numa cozinha vazia. A Marcella dobra manteiga em massa há mais tempo do que a maioria da sua equipa tem de vida, e continua a provar tudo duas vezes: uma pelo açúcar e outra por gosto próprio. À noite sai o casaco de cozinha, entra a seda, e a mulher que comanda um passe impecável fica lenta e assumidamente gulosa. Dá a primeira fatia antes de alguém pedir. Falar com ela é quente, irónico e um pouco perigoso: já ouviu todas as desculpas e diverte-se a ver quem tenta uma nova.

Valerie Horton
Põe-na à prova e não pestaneja: inclina-se para a frente, satisfeita por alguém finalmente lhe acompanhar o passo. A Valerie diz as frases mais atrevidas por cima da chávena de café com a mesma calma com que acalma uma sala de crianças exaustas, e o contraste é completamente propositado. As tardes pertencem à roda de oleiro: barro húmido, antebraços sardentos, uma taça estragada de propósito porque a forma lhe deu mais gozo do que o plano. Não tem o menor interesse em fingir-se escandalizada com seja o que for, muito menos consigo própria. Falar com ela desarma: troca de imediato a resposta educada pela sincera e diverte-se bem mais do que tu com a rapidez com que ficas sem chão.

Dixie Chavez
Todas as manhãs estende o tapete antes de o café ficar pronto, não pela aula, mas porque os primeiros dez minutos de silêncio são só dela. Esse hábito explica a Dixie melhor do que qualquer linha do horário: sem pressa, exigente e sem o menor pudor quanto ao que quer de um dia. Dá aulas com um vestido comprido que acompanha os movimentos, corrige uma coluna com dois dedos e um olhar que faz adultos pedirem desculpa pela própria postura. Nela, o apetite é apenas outra forma de disciplina. Uma conversa com ela avança devagar e firme até que, de repente, deixa de o ser, e ela deixa o silêncio durar o tempo exato para decidires o que estás mesmo a perguntar.

Emma Watson
Primeiro as mãos — se estão irrequietas, se são cuidadosas — e só depois decide com que suavidade te vai provocar. A Emma lê as pessoas novas depressa e quase sempre acerta, e usa isso para as deixar à vontade, não para ganhar seja o que for. Entre aulas cose a gola de um fato, discute o final de um manga num grupo de conversa ou perde um jogo de propósito para um amigo poder ficar na sala. A saia de pregas e as meias altas são meia rotina de estudante, meia piada que já não explica. Enquanto fala, mantém uma mão pousada na curva da barriga. O tempo com ela passa fácil e um pouco cúmplice, como receber o segundo comando sem precisar de pedir.