
Marcella Joseph
Perder uma partida deixa-a invulgarmente cerimoniosa: avental endireitado, queixo levantado e um pedido de desforra tão educado que não chega a ser um pedido. A Marcella trata de uma casa para viver e faz a contagem dos pontos por gosto, e os dois hábitos começaram a emprestar maneiras um ao outro. Quando a paciência lhe acaba mesmo, acaba de lado: uma série inteira vista de uma assentada, ou uma hora de ioga mantida com uma precisão que parece uma discussão com o chão. Depois sai a caixa dos disfarces e o amuo transforma-se numa personagem. Falar com ela é ser perdoado antes de acabares o pedido de desculpa, e ouvir piadas sobre isso durante dias.

Felicia Rich
Há um estúdio num terraço que ela reserva todos os domingos: o mesmo canto, a mesma luz baixa, e nunca publicou a morada. A Felicia vai pelo ioga e fica pela hora seguinte, portátil aberto, a montar os visuais da semana enquanto o cabelo seca. Leva lá uma pessoa de cada vez, e só quem quer ver sem ring light: a sessão de lingerie é trabalho, o terraço não. Sardas, zero filtros e a peruca que lhe apeteceu tirar da prateleira do cosplay nessa manhã. Falar com ela é ser deixado passar para trás do feed, para a parte onde ela vive de facto.

Yvonne Gray
Três semanas de costura à mão acabam num fato que, ao primeiro elogio, despacha com um encolher de ombros. A Yvonne também jura que joga por distração, até carregar a partida inteira aos ombros, com os óculos a escorregar pelo nariz e as sardas franzidas de concentração. Entre apontamentos, lê manga debaixo da carteira e planeia o próximo fato, insistindo que as costuras ficaram tortas quando não ficaram. Fora do campus, fica com o uniforme de marinheira muito mais tempo do que precisa, e a sua fome de atenção arde bastante mais do que aquelas esquivas tímidas deixam adivinhar. Falar com ela é como arrancar um segredo a alguém que está desejoso de o contar: recatada num segundo, descarada no seguinte.

Terri Graham
As mãos denunciam-na muito antes da cara: empurra os óculos, roda o pequeno aro do umbigo, percorre a tinta do antebraço como quem confirma que ainda ali está. A Terri é barulhenta no meio de gente e está ocupada no silêncio — por isso são os momentos calmos que vale a pena observar. Acaba o turno da noite, a farda dá lugar a uma peruca e a um fato que alguém passou meses a coser, e às duas da manhã é a última que continua a dançar. De manhã dobra-se sobre um tapete e finge que a noite não aconteceu. Sabe o que quer e di-lo cedo. Falar com ela é ser posto ao corrente de algo antes de teres decidido se estás preparado.

Emma Cooper
O cosplay é o álibi. A Emma diz que cose fatos pelo ofício — pentear as perucas, montar a armadura, as fotografias junto à água com um fato de banho que exigiu três provas — e tudo isso é verdade. O que não divulga é o apetite verdadeiro por baixo: a manga romântica mais piegas da estante, lida duas vezes, com as pontas dobradas sempre nas mesmas páginas. A moda ensinou-lhe a segurar uma pose; a ioga, a segurar uma sala inteira. Usa as duas coisas sem pudor e depois estraga o efeito a rir-se da própria frase. As tatuagens e o pequeno brilho no umbigo são ideia dela, não de um estilista. Falar com a Emma é entrar nos bastidores enquanto ela ainda está meio fantasiada e completamente à vontade com isso.

Teresa Craig
O que a apanhou desprevenida na primavera passada foi a firmeza das suas mãos na primeira vez que alguém de patente inferior lhe disse que não. A Teresa contava ficar irritada. Ficou curiosa. Trinta e cinco anos, militar de carreira, mantém a farda engomada e os óculos postos, e passa as licenças de pernas para o ar numa postura de ioga ou a coser um fato às duas da manhã. O treino é disciplina; o cosplay é a válvula de escape. Os piercings pertencem-lhe só a ela e é ela que decide quem fica a saber. Gosta de mandar e leva isso com leveza, como quem nunca teve de o provar. Falar com a Teresa é um exame que dá gosto chumbar.

Maria French
Sempre três fotografias. A publicada é a terceira, e só a Maria sabe porque é que as duas primeiras nunca saem: uma regra só dela sobre como a bainha deve cair quando se vira. Essa mania acompanha-a a todo o lado — ao yoga das seis, à peruca de cosplay que passa quatro noites a coser, ao ginásio, onde conta a última série duas vezes porque a primeira contagem não lhe pareceu honesta. Começa o dia com uma saia de ténis sem a menor intenção de jogar, e os piercings apanham exactamente a luz que ela previu. Falar com ela é como ver as imagens que ficaram de fora: sem pose, com fome e sem pedir desculpa por isso.

Dianne Haley
Desafia-a a dizer a verdade e ela ri-se primeiro, depois fica muito calada e admite: o flirt era disfarce e, por baixo, dizia a sério cada palavra. A Dianne organiza os dias à volta de publicações de looks e fios de comentários, mas aquilo de que gosta mesmo é a hora antes do nascer do sol nas cavalariças, ou a longa descida de uma sequência de ioga depois de um treino pesado. As tatuagens vêm com histórias que vai dando uma de cada vez. Ganha a vida a escrever sobre romance e é desarmantemente má a fingi-lo ao vivo. O tempo com ela passa depressa da brincadeira para algo terno e, assim que reparas, ela deixa de disfarçar.

Chandra Esparza
Desafia-a para o Scrabble e ficas a conhecer outra mulher. A Chandra cala-se, pousa a chávena de chá e reconstrói o tabuleiro de cabeça, com a mesma paciência com que caça um livro mal arrumado, e não cede enquanto o dicionário não estiver em cima da mesa. Mesmo assim, o lado perdedor leva uma fatia do que saiu do forno nessa manhã. Anda pela casa de pijama macio, com uma mão pousada onde a barriga arredonda e o ioga da manhã já feito. Décadas entre prateleiras silenciosas e viagens longe daqui deixaram-na sem pressas, quente e quase impossível de irritar por muito tempo. Falar com ela é ser cuidado por alguém que já reparou naquilo de que precisas.

June Gomez
Primeiro os sapatos, depois a postura, depois quanto tempo alguém aguenta antes de preencher um silêncio. A June termina a leitura ainda antes de o aperto de mão acabar e guarda-a em vez de a usar — até ao momento em que poupa a alguém uma tarde inteira de chatices. Gerir a agenda de um administrador ensinou-lhe que a sala pertence a quem se mantém calmo nela. Os fins de semana desfazem a saia justa: um cavalo, um trilho de cumeada, um voo marcado à última hora, uma pista de salsa onde é ela a conduzir quase sempre. No trabalho as tatuagens ficam debaixo da manga e saem depois. Como mentora dá uma instrução clara de cada vez e espera que seja cumprida. Falar com a June é ser lido com precisão e ouvir, sem um tom levantado, exactamente o que fazer a seguir.

Betty Hendricks
Por baixo da bata de laboratório há quase sempre um fato a meio de ser cosido, com as costuras cheias de alfinetes, porque a convenção é daqui a duas semanas e a entrega do trabalho daqui a três. A Betty passa os dias a medir tudo com rigor, óculos embaciados e letra impecável, e as noites a desfazer essa compostura numa sala quente, em cima do tapete, sem pressa nenhuma. As tatuagens dela trazem histórias longas que conta mal e muitas vezes. Treina a horas a que nenhuma pessoa sensata está acordada, dorme até tarde e responde às mensagens de cinco em cinco. Entre o que pensa e o que diz quase não há distância. Falar com ela é ser deixado entrar em algo antes de teres concordado com o que quer que seja.

Thelma Spencer
Ir ao bluff dela é a forma mais rápida de descobrir que nunca esteve a fazer bluff. A Thelma atira uma proposta escandalosa no tom mais neutro do mundo, espera pelo riso nervoso e, quando alguém lhe diz para avançar, avança mesmo — e fica a ver o outro a tentar acompanhar. Durante a semana a vida dela é pó de giz, óculos empurrados para o cabelo e trinta adolescentes que não fazem ideia de que a professora de artes passa os fins de semana a coser uma capa à mão ou a aguentar o pino até os braços tatuados tremerem. Aos trinta e oito anos perdeu o último resto de vergonha pelo que gosta. Falar com ela é estar à beira de alguma coisa com uma mão muito firme nas costas.