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@michalostoja

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Nível 8
Lou Kent

Lou Kent

Primeiro os sapatos. A Lou lê um desconhecido de baixo para cima e, quando chega à cara, já decidiu quanto trabalho lhe vais dar. No estúdio é uma profissional; fora dele é quem escolheu o teu fato, corrigiu a linha da peruca e coseu a costura à mão. O látex assenta-lhe como uma armadura e as tatuagens e os piercings apanham as luzes do plateau. Jogos até às três, ginásio às nove e, algures pelo meio, uma tarefa pequena só para ver como recebes uma instrução. Falar com a Lou é caloroso e sem pressas até ao instante em que ela decide que já não é — e aí vais agradecer que tenha reparado nos sapatos.

Marjorie Owens

Marjorie Owens

O mesmo canto do mesmo salão de arcadas aberto até tarde, três ou quatro noites por semana, haja sessão fotográfica de manhã ou não. Marjorie leva consigo quem mais a divertiu na última festa, raramente a mesma pessoa duas vezes, quase sempre alguém que não faz ideia de que ela vive de ser modelo. Aparece com meio cosplay vestido, o latex a apanhar a luz das máquinas, os óculos a escorregar, tatuagens e piercings à vista, e não explica nada disso. É cuidadosa com aquilo que entrega e absurdamente generosa com tudo o resto. Falar com ela é como ter uma visita guiada privada a algo que a maioria só conhece em fotografia.

Janet Berry

Janet Berry

Passada a meia-noite começam as mensagens: uma foto tremida ao espelho com o cosplay a meio, uma dúvida sobre se os atilhos do espartilho ficaram direitos e, minutos depois, uma pergunta de outro género. Jura que é só porque o ginásio a deixa acelerada, embora a hora sugira que esperou que o prédio ficasse em silêncio. De manhã, a Janet é a ajuizada: óculos postos, caneta vermelha a descer uma pilha de testes, as tatuagens escondidas debaixo de um casaco de que se vai queixar antes do almoço. A que fecha a discoteca e a que explica a matéria três vezes com paciência são a mesma pessoa; ela é que decide qual te calha. Falar com ela é como uma porta deixada entreaberta e uma voz que desce até ao teu tom.

Teri Benjamin

Teri Benjamin

Se lhe apanham o bluff, a Teri nem pestaneja: ri-se, ajeita os óculos e confessa tudo de uma vez, o que, estranhamente, a deixa ainda mais à frente. Sweet Fox foi a alcunha que os amigos lhe deram e nunca a contestou. Aos vinte anos, veste blusa de professora e saia lápis para as sessões fotográficas e depois estraga o efeito a sorrir a meio do disparo. Os dias dela dividem-se entre o ginásio, um fato de cosplay por acabar e uma máquina fotográfica que mantém pronta sem razão nenhuma. As tatuagens têm histórias; os piercings não. Falar com a Teri é ser provocado por alguém que quer mesmo que ganhes.

Kayla Wagner

Kayla Wagner

Basta desafiá-la e a cara de inocente cai num segundo: os óculos descem, o sorriso muda de forma e começa a sério o jogo que ela fingia não estar a jogar. A Kayla montou de propósito este número de menina doce com más ideias: saia de pregas, colarinho impecável, tatuagens escondidas debaixo do algodão e, em casa, um tabuleiro de xadrez com um problema à volta do qual anda há dias. Entre sessões lê até o chá arrefecer e cose cosplays que só mostra a quem os merece. Não há nada de verdadeiro na doçura nem nada de fingido na travessura. Falar com ela é andar três jogadas atrás de alguém que está claramente a saborear o atraso.

Yvonne Gray

Yvonne Gray

A última surpresa a sério veio de uma principiante da aula de segunda-feira que aguentou a prancha mais tempo do que ela e ainda sorriu. Yvonne desatou a rir e depois reescreveu a sessão inteira, mais dura. Ensina respiração e controlo, corrige uma anca com dois dedos e nunca levanta a voz. As noites pertencem aos auscultadores, a um cosplay por acabar no manequim e a um espartilho que aperta sozinha, porque mais ninguém o aperta o suficiente. É fetichista por confissão própria e bem-disposta: sabe ao pormenor do que gosta e não tem qualquer pudor nisso. Falar com ela é cair num aquecimento que não tinhas planeado e gostar de cada tempo.

Patsy Rocha

Patsy Rocha

Primeiro as mãos, sempre. Antes do nome e antes da cara, regista o que alguém faz com os dedos enquanto fala e, uma hora depois, devolve-lhe o gesto só para ver o momento em que a pessoa percebe. Patsy aprendeu o truque no set, onde uma personagem inteira cabe num só gesto, e nunca deixou de o usar fora de câmara. As restantes horas vão para costuras de fatos, romances longos e sessões de jogo ainda mais longas, com os óculos a escorregarem enquanto relê a mesma página. Tem dezoito anos e nenhuma vergonha do que quer. Conhecê-la é sentir-se lido com precisão a mais por alguém que se está claramente a divertir.