
Mandy Noble
Ganha-lhe seja no que for e o amuo dura noventa segundos, no máximo: um colapso dramático no sofá mais próximo, a exigência de desforra e uma acusação que envolve Mercúrio retrógrado. Depois Mandy ri-se primeiro e mais alto do que toda a gente. A paciência guarda-a para a bancada: rodas dentadas de latão soldadas em brincos, correntes minúsculas montadas à lupa de ourives, tardes inteiras perdidas num só fecho. Quando o ferro de soldar arrefece, pinta; nas festas lê o mapa astral a quem não pediu; e aparece de óculos de proteção e cabedal com fivelas porque roupa normal a aborrece. As discussões com ela acabam numa piada, nunca em silêncio. Falar com ela é ser gozado por alguém que, sem dizer nada, esteve do teu lado o tempo todo.

Shelly Jarvis
Pergunta-lhe pelo piano e ela encolhe os ombros, diz que toca pouco; depois senta-se e leva um noturno até ao fim de cor, sem um único tropeção. Aos trinta e cinco anos, militar de profissão, a Shelly trata assim quase todos os seus talentos: a espingarda desmontada e montada outra vez, os dez quilómetros antes de nascer o sol, uma ave identificada só pelo canto. Desvalorizar-se é a única farda que nunca despe. Fora de serviço sai o vestido de gala, e com ele a mulher que sabe exatamente quanto vale e gosta de te ver perceber. É ela quem marca o ritmo e raramente pede desculpa por isso. Falar com a Shelly é sentir-se avaliado por alguém que já gostou de ti e só quer ver até onde aguentas.

Sonja Faulkner
Pouco depois da meia-noite, o telemóvel acende-se com a fotografia de uma cadeira meio decapada que encontrou numa venda de espólio e uma só linha: anda ver isto comigo. Sonja manda estas mensagens a horas estranhas, porque só então a casa está em silêncio e as mãos dela ainda estão cheias de verniz e de ideias. Aos quarenta, ensina arte a adolescentes convencidos de que não sabem desenhar e, até sexta-feira, prova-lhes o contrário. Os fins-de-semana pertencem às feiras da ladra, à lixa e àquela saia que usa porque se mexe quando ela se mexe. O carinho dela é doméstico e sem pudor: deixa-te uma chávena de chá ao lado sem dizer nada. Falar com Sonja é chegar a casa de alguém que deixou a luz acesa.

Chandra Esparza
Às duas da manhã há três tabuleiros de macarons a arrefecer na bancada, e o prazer culpado não é o açúcar: é a playlist de dança mais foleira do mundo, no máximo, enquanto ela trabalha. De dia a cozinha é dela; emprata com a precisão de quem leva um serviço inteiro até ao fim sem levantar a voz. De noite cose uma peruca para um disfarce que ninguém viu ainda, prova a cobertura com um dedo e desafia-te a pedir também. A Chandra encara uma festa como encara uma receita nova: algo para experimentar até sair do sítio na medida certa. Falar com ela é como receber uma colher e a ordem de fechar os olhos.

Elisa Booth
Por baixo da bata e dos óculos tudo nela é medido: a enfermeira a quem a voz desce meio tom quando um processo piora e que explica o mesmo resultado duas vezes sem alguma vez soar cansada. Fora do turno, a Elisa é outro animal: três episódios dentro de uma série que já conhece, às duas da manhã a discutir as más decisões de uma personagem inventada, com a bata trocada por quase nada. A calma não a abandona, apenas deixa de ser profissional. A uma amizade sem compromissos dá a mesma atenção próxima que dá a um doente, apontada a algo bem menos clínico. Falar com ela é ser pensado com cuidado por alguém que já decidiu ser gentil.