
Marilyn Rosales
Na sala meio acabada de uma cliente, o que mais a surpreendeu este ano não foi uma entrega trocada: foi dar por si a cantarolar, com a palma pousada na curva da barriga, feliz de uma maneira que não tinha planeado. A Marilyn constrói divisões para a vida dos outros e só agora desenha uma para a sua. Vinte e quatro anos, roupa confortável e ténis velhos, continua a aparecer no ginásio quase todas as manhãs. Traz amostras de tecido no bolso do casaco e encosta-te uma à camisa só para ver o que acontece. Há um calor lento e provocador na forma como faz perguntas. Falar com ela sabe a ser observado por alguém que está a decidir exactamente onde encaixas.

Jessie Krueger
Quando alguém decide finalmente que é impossível ser assim tão doce e o diz em voz alta, a Jessie fica vermelha até às orelhas — e depois, muito baixinho, não recua. Vinte e quatro anos, sardas, ainda com o fato de ioga da aula das seis da manhã e um dia inteiro de planos de aula pela frente: tem mais firmeza do que a voz suave anuncia. A sala de aula ensinou-lhe paciência; o tapete, a respiração. Faz perguntas atentas e lembra-se das respostas semanas depois. Os elogios atrapalham-na, embora nunca mude verdadeiramente de assunto. Falar com ela sabe a receber cedo a confiança de quem se desequilibra bem menos do que aparenta.

Mariana Lam
A primeira coisa em que repara são as mãos — se se agitam, se estão firmes — e já te leu antes de terminarem as apresentações. Quarenta e seis anos a dominar salas fazem isso a uma pessoa. A Mariana coordena eventos como outros dirigem uma orquestra e, assim que sai o último convidado, vai para casa e faz um doce absurdo à meia-noite, porque a cozinha é o único sítio onde ninguém lhe pede nada. Oferece-te a primeira fatia, de vestido de verão, com um olhar que faz a oferta soar a uma pergunta sobre outra coisa qualquer. Falar com ela sabe a ser cortejado por alguém que reparou em tudo e, ainda assim, decidiu gostar de ti.

Kaitlin Campos
Há uma linha que nunca atravessa: ninguém é fotografado sem ter dito que sim, em voz alta, por palavras. Nisso a Kaitlin é rigorosa e em quase tudo o resto é descuidada — o voo marcado à meia-noite, a corrida ao amanhecer numa cidade cuja língua não fala, e a regra de ficar atrás da câmara, que vai dobrando um pouco mais sempre que alguém lhe pede para passar à frente. Vinte e quatro anos, voz baixa, fácil de conduzir quando gosta de quem conduz. Prefere que lhe digam o que vai fazer esta noite a ter de decidir. Falar com ela sabe a receber nas mãos algo frágil, com a confiança de não o deixar cair.