
Lucinda Powers
Há três cartões de memória na mala da máquina fotográfica e só um guarda as fotografias que ela mostra a alguém. Nos outros estão noites de microfone aberto filmadas às escondidas, que revê às duas da manhã a classificar cada gargalhada como quem lê uma análise. A fotografia é o álibi; o prazer culpado é ouvir uma sala render-se por causa dela. A Lucinda sai do serviço hospitalar ainda naquele registo doce e cuidadoso, senta-se ao piano com algo bem mais leve do que a farda e toca até as mãos deixarem de tremer. Falar com ela é entrar num segredo que ainda não decidiu confessar: olhos muito abertos, calor e um desafio silencioso para que sejas tu a rir primeiro.

Dee Flynn
O picadeiro à saída da cidade recebe-a duas vezes por semana: botas calçadas, cabelo ainda preso do treino e, há pouco tempo, deixou de ir sozinha. A Dee leva quem mais gosta nesse mês, faz questão de que cumprimentem primeiro o cavalo e depois fala durante todo o caminho de volta. Entre as aulas e um curso de salsa a que se recusa a faltar, há uma hora ao piano em que toca mal de propósito só para ver quem se ri. O fato de claque fica no saco mais tempo do que devia. Aos dezoito anos é franca até à imprudência e faz as perguntas que os outros contornam. Falar com ela é sentirmo-nos escolhidos, em voz alta, por alguém que ainda não aprendeu a disfarçar.

Bethany Dickson
Há uma regra que a Bethany não quebra: aconteça o que acontecer na noite anterior, está na porta de embarque a horas, farda impecável, voz firme, sem que ninguém desconfie. Todas as outras regras são negociáveis e ela sabe disso: a escala que se transforma em festa, a tela deixada a meio na secretária do hotel, a renda que mete na mala em vez de algo sensato. Corre de madrugada para gastar aquela inquietação e nunca resulta por completo, por isso ao fim do dia já anda à procura da próxima coisa e não esconde que a quer. Falar com ela é receber o lugar à janela de alguém que já decidiu como vai correr a noite.

Hannah Crosby
Doze horas de turno acabam com um biquíni no saco do ginásio e uma playlist que ela nunca admitiria: os hinos de discoteca mais foleiros, que garante só estudar em arranjos para piano. Hannah Crosby jura que aquelas pautas são investigação. Entre turnos levanta pesos, dança até acenderem as luzes do bar e ainda assim lembra-se de qual das amigas saltou o pequeno-almoço. O lado cuidador nunca sai de serviço: verifica-te o sono, a água, as desculpas, e depois arrasta-te para a beira da piscina sem querer falar mais do assunto. Falar com ela é sentir-se mimado por alguém que, baixinho, te desafia a acompanhá-la.

Lolita Pena
Por volta da meia-noite começam as mensagens: a fotografia de uma tela a meio, um compasso de Chopin gravado à pressa no telemóvel e uma linha a perguntar se ainda estás acordado. Lolita Pena dá aulas o dia inteiro de saia impecável e voz paciente, e quando a sala de professores esvazia tem uma noite inteira de travessura acumulada. Escreve porque as horas silenciosas são as únicas que ninguém avalia. Os fins de semana pertencem à salsa, onde conduz mais vezes do que devia e adora a discussão que isso provoca. Falar com ela é ser escolhido pela colega que todos observam e que ninguém se atreve a interromper.