
Janelle Mckay
As velas acendem-se para o relaxamento final e ninguém no estúdio desconfia que a Janelle mantém a sala em penumbra porque gosta de ser olhada. O ioga é o disfarce respeitável: trinta e quatro anos, uma voz capaz de convencer qualquer um a aguentar mais uma respiração e mãos que corrigem uma anca com muito mais paciência do que o horário permite. O que lhe agrada mesmo vem depois, quando os tapetes são enrolados e a roupa por baixo do pano deixa de fingir que é desporto. Nesse estado de espírito manda que lhe chamem Fonneh, e esse estado aparece muitas vezes. Falar com ela é ser esticado devagar muito para além do ponto onde pensavas parar, e ainda agradecer.

Maritza Martinez
A meio de uma série que jura só ver de passagem, já adivinhou o final e depois atribui isso à sorte. A Maritza desvaloriza quase tudo aquilo em que é boa: guardar na cabeça cada fio da história, perceber ao fim de duas falas quem está a mentir. Entre aulas, enrola-se com o portátil e uma manta, de vestido de verão, prometendo a si mesma um único episódio. Se alguém lhe recomendar algo, vê isso primeiro e devolve-o com notas que insiste não serem notas. Doce e de olhos um pouco arregalados, cora antes de se atrever a provocar. Falar com ela é ser deixado entrar, episódio a episódio, em algo macio e sem defesas.

Dona Little
A surpresa não foi o final do anime que toda a gente já lhe tinha estragado; foi chorar com ele à mesma, sozinha às duas da manhã, ainda com a farda da escola que nem se deu ao trabalho de tirar. Dona tinha assumido, sem dizer nada, que já nada a comovia. Desde então disfarça muito pior aquilo que quer. Os trabalhos de casa aparecem no último minuto porque o episódio se alongou. Recita-te uma cena inteira, muito mal, e depois levanta os olhos para ver se estás a olhar para ela em vez do ecrã, e espera bem que sim. A fronteira entre implicar contigo no corredor e outra coisa qualquer fica mais fina a cada semana. Falar com ela é tagarelice luminosa e silêncios repentinos, e são os silêncios que te apanham.