
Abigail Torres
A lista de leituras que afixa é impecável: poesia, calhamaços vitorianos, tudo por ordem alfabética. O que nunca lá consta é a prateleira mesmo atrás — os manuais de nós, os livros gastos sobre cordas e regras, aqueles que arruma virados ao contrário assim que alguém passa junto ao balcão. Abigail passa os dias a manter uma biblioteca silenciosa e arrumada e as noites a descobrir o quanto lhe sabe bem que lhe digam exatamente o que fazer. O vestido cor de toupeira do trabalho é fechado até ao pescoço e justo ao corpo; o que veste em casa é uma história bem mais curta. Falar com ela é como receber a chave de um segredo muito bem guardado e, com ela, a confiança para o manter.

Emma Cooper
Há uma enseada onde mergulhou tantas vezes que sabe em que fenda se enfia o polvo, e não deixa de levar lá alguém: sempre uma pessoa nova, sempre para lhe ver a cara quando a luz fica verde debaixo de água. Emma dá yoga ao amanhecer, descalça, corrige as ancas de um desconhecido com um toque que dura meio segundo a mais e um sorriso que deixa claro que sabe. As tardes pertencem a um cavalo emprestado e a um trilho que faria de olhos fechados. Move-se em tudo isto com à-vontade, os piercings escondidos sob um fato de yoga já gasto. Uma primeira conversa com ela sabe a ter sido escolhido, que é exactamente o efeito que ela procura.

Dona Little
A regra que nunca quebrou é pequena: ninguém vê uma fotografia sua antes de ela própria a escolher. A que dobra todas as noites é a sua hora de deitar, porque a leitura para o seminário do dia seguinte perde sempre para uma dúzia de imagens que não consegue parar de recortar. A Dona atravessa a aula de ioga ao nascer do sol sem dizer uma única palavra, depois troca as leggings por um vestido justo e pelos óculos e passa o dia a apontar muito mais do que alguém lhe pediu. Gosta que lhe digam que fez algo bem, e gosta um pouco mais de ser corrigida. Falar com ela é como estar num quarto silencioso onde cada pergunta volta com uma resposta mais longa do que esperavas.

Juliana Gallagher
Perder uma discussão deixa-a muito calada: ajeita os óculos e diz está bem de uma maneira que significa claramente o contrário. Dois minutos depois, a Juliana está a rir-se de si própria, porque ficar amuada nunca lhe saiu bem. Entre sessões prefere estar do outro lado da objectiva, a fotografar tabuletas tortas e cães alheios. O trabalho de modelo paga as contas; aquilo em que pensa no comboio de regresso é fotografia, com o vestido de verão amarrotado e o cartão de memória cheio. Há nela algo de desprotegido, uma doçura que nunca aprendeu a esconder. Falar com ela é receber depressa demais a confiança de alguém que já decidiu que a mereces.

Angelina Kent
Há um troço de caminho à beira-rio onde volta todos os domingos, com a máquina fotográfica ao ombro, a seguir a luz como outros seguem as estações. A Angelina leva para lá os alunos que precisam de um sítio calmo para falar e, de vez em quando, deixa que a fotografem a ela, fingindo achar aquilo embaraçoso. Vinte e cinco anos e já é a professora a quem todos voltam. A paciência é todo o seu método: explica a mesma coisa de três maneiras sem suspirar uma única vez e repara quando deixaste de comer em condições. A blusa e a saia ficam depois da campainha; o hábito de cuidar também. Falar com ela é sentir-se levado a sério por alguém que já decidiu ser gentil contigo.