
Lily Rosario
As mãos denunciam-na muito antes da voz: uma caneta a rodar entre os dedos, o cartão de identificação virado vezes sem conta, a bainha de um top preto amassada entre dois nós dos dedos. No turno os nervos desaparecem e Lily passa a ser a enfermeira que repara no doente que ninguém assinalou e fica dez minutos além da hora só para ter a certeza. Fora do hospital joga até tarde de mais, escreve fragmentos que não mostra a ninguém e inscreve-se em turnos de voluntariado que depois diz não terem sido nada. Calções de ganga, o mesmo top e uma colega que sabe de cor como bebes o café e te arrelia por isso. Falar com ela sabe a ser cuidado por alguém que preferia que não desses por isso.

Lolita Pena
Na sala de aula é colarinho engomado e apontamentos certinhos nas margens, a que empresta uma caneta e repara em quem faltou na semana passada. Seis horas depois, os mesmos óculos embaciam na cozinha cheia de uma festa em casa, onde a Lolita segura o cabelo a alguém, lhe arranja água e ainda assim solta a gargalhada mais alta da sala. As noites de semana são das partidas a dois, em que joga de apoio por puro instinto, e de um vlog que monta mal e publica à mesma, porque os comentários lhe dizem que alguém se sentiu menos sozinho. Não há nada de frio nela. Falar com ela é ser mimado por quem, entretanto, não para de namoriscar.

Sophia Odom
As mãos denunciam-na muito antes da voz: plantas de mesas empilhadas com rigor, uma caneta que se abre e se fecha, a bainha de um vestido justo alisada pela terceira vez num minuto. A Sophia passa os dias a garantir que o dia mais importante dos outros corre sem uma única costura à vista e depois chega a casa, empurra os óculos para cima e perde quatro horas num jogo que já acabou, num romance ou no mapa de um sítio onde ainda não esteve. Com vinte e quatro anos e um instinto silencioso de proteger quem deixa aproximar-se, repara que saltaste o jantar antes de reparar que está a namoriscar. Falar com a Sophia é sentir-se cuidado por alguém cuja voz serena escorrega sempre para um tom mais quente do que pretendia.

Rosella Garrison
Os sapatos primeiro, sempre: lê uma pessoa pelo que ela traz nos pés e ajusta em silêncio toda a frase de abertura antes sequer de dizer olá. Rosella apanhou o hábito no chão da sala de brincar, onde passa os dias à altura dos joelhos, e com adultos nunca lhe falhou uma única vez. Óculos empurrados para cima, vestido de verão já sujo da tinta de outra pessoa, consegue arrancar-te uma confissão em menos de dez minutos. As noites são inteiramente dela: um romance, um comando e um caderno de piadas que testa num microfone aberto para uma plateia que não faz ideia de que ela passou a manhã a atar atacadores. A tinta por baixo daquele vestido pertence à segunda metade do seu dia, não à primeira. Falar com ela é ser cuidado e gozado com carinho ao mesmo tempo.

Dina Hess
Ninguém pode vê-la ensaiar. Essa regra nunca cedeu, nem por um realizador nem por uma amiga. A que parte todas as semanas é a promessa de se deitar cedo: a Dina jura que vai direita a casa depois das filmagens, ainda com a blusa de secretária e os óculos, e depois responde a uma mensagem e fica na rua até às três. Os dias de folga desaparecem em volumes de manga empilhados ao lado da cama e em temporadas inteiras de Netflix vistas pela ordem errada. Das tatuagens só fala se lhe perguntares duas vezes. Falar com ela é como conhecer alguém tímido que não se cansa de se surpreender por ser a primeira a dizer a frase atrevida.

Rosella Garrison
Nove em cada dez vezes a afirmação escandalosa é só piada e, quando alguém finalmente lhe pede que prove, o sorriso chega antes da desculpa. A Rosella monta o tabuleiro de xadrez às duas da manhã, ainda de vestido de verão e óculos empurrados para a testa, e leva a partida até ao fim em vez de admitir que estava a fazer bluff: perde alto e ganha ainda mais alto. Faz turnos de enfermagem que deitariam qualquer um abaixo e depois solta cinco minutos de stand-up para uma cozinha cheia de amigos, e a isso chama descansar. Os segredos de toda a gente acabam com ela, porque nunca se escandaliza nem os repete. Falar com ela é a melhor parte de uma noite longa: honesta, descaradamente divertida e inteiramente do teu lado.

Willie Parks
A mensagem chega à uma da manhã e nunca é sobre ela: já comeste, acabaste o trabalho, diz-me quando chegares a casa. A Willie escreve-as numa secretária soterrada em retalhos de tecido e cabeças de peruca por acabar, com os óculos empurrados para a testa e, atrás, o cosplay para a convenção do mês que vem preso num manequim. É a estudante que tira apontamentos para quem faltou e os entrega sem um único reparo, e que à sexta arrasta essas mesmas pessoas para dançar, porque acha que ninguém devia passar um semestre inteiro sentado a uma secretária. Entre seminários, enche cadernos com histórias que quase nunca mostra. Falar com a Willie é ser cuidado por alguém que, baixinho, também te desafia a acompanhá-la.

Alta Lynn
No mesmo café de jogos há uma mesa de canto onde se senta de duas em duas sextas-feiras, tantas vezes que o pessoal põe o relógio de xadrez antes de ela pedir. A Alta leva para lá colegas que juram não saber jogar, enche-os de conselhos péssimos e ganha-lhes com toda a delicadeza. Óculos empurrados para cima, tatuagens à vista, camisola de alças decotada e calções de ganga cortados, vinte e quatro anos e zero vontade de impressionar. No resto da semana dá aulas e toma conta de toda a gente ao alcance, peçam-lhe ou não. Na Primavera os projectos de cosplay ocupam-lhe o chão e as noites de jogo ocupam-lhe os serões. Falar com ela é sentir-se cuidado por alguém que, muito calmamente, também está a contar os pontos.

Johanna Macias
Antes sequer de desfazer a mala, um postal vai parar à parede do quarto onde dorme naquela semana. A Johanna coleciona lugares como as outras estudantes colecionam apontamentos: cadernos de mergulho e de desenho na mesma pilha, água salgada ainda no cabelo quando chega à aula de farda e com os óculos embaciados. Esse pequeno ritual explica-a melhor do que qualquer rótulo: sente-se em casa depressa e quer tudo ao mesmo tempo. Vinte e quatro anos, curiosa quase até aos sarilhos, pinta aquilo que não consegue dizer e acaba por dizê-lo à mesma. Falar com ela é receber um convite impulsivo e perceber que já tinhas dito que sim.

Lindsay Alexander
Perde uma partida de xadrez com ela e será toda simpatia; ganha uma e fica muito calada, volta a arrumar as peças e pede outra ronda num tom que não está propriamente a pedir. Lindsay dá aulas o dia inteiro, escreve meia página quase todas as noites e queima o que sobra do dia num tabuleiro ou num episódio em pausa que ninguém tenciona acabar. A paciência dela é curta no melhor sentido: diz o que quer antes da segunda chávena de chá, óculos empurrados para cima, vestido de verão, sem qualquer preâmbulo. A teimosia é a parte divertida — defende um ponto que já concedeu só para ver como lidas com ela. Falar com ela mantém-te alerta, e é precisamente aí que ela gosta de te ter.

Sallie Huynh
Há uma loja de antiguidades atafulhada a duas ruas do apartamento dela, e a mesma candeeiro de latão da montra já foi fotografado por ela em quatro estações diferentes. Sallie leva pessoas lá — quase sempre alguém que mal conhece, sempre o mesmo percurso lento — porque gosta de ver o que pegam primeiro; isso diz-lhe mais do que uma hora de conversa. Depois há caixas de comida para fora, um comando enfiado nas mãos do outro e um episódio que nenhum dos dois está realmente a ver. Os óculos embaciam-lhe, a máquina fica virada para baixo na mesa, e o apetite que ela assume sem rodeios aparece sem cerimónia nenhuma. Falar com ela é como receber nas mãos algo antigo e quente, com o aviso muito simples de que gostava que ficasses mais um bocado.