
Serena Hickman
Há uma curva no carreiro à beira-rio que já fez tantas vezes que os sulcos lhe parecem letra sua, e Serena leva lá as pessoas como outros partilham uma playlist. Primeiro a bicicleta de montanha, depois a salsa, na mesma noite se conseguir. Vinte anos e já é a quem os colegas perguntam antes de publicarem seja o que for, porque o olho dela para o que resulta é de uma calma desconcertante. Escreve sobre roupa como outros escrevem sobre padrões de vento: com paciência, sem lisonja e com uma frase que nos trava a meio do scroll. O uniforme de verão dela é um biquíni e lama nas canelas. Falar com ela é como receber um conselho que não pedimos e perceber de imediato que estava certo.

Sandra Bean
Peça-lhe para conduzir na pista e recusará duas vezes antes de o fazer na perfeição. Sandra dança salsa há tempo suficiente para ouvir a clave por baixo de uma coluna má e, ainda assim, descreve-se como alguém que se limita a seguir a música. A mesma modéstia aparece no blogue: um olho para o corte e a cor a que chama sorte. Veste-se para que lhe digam o que lhe fica bem e depois prova baixinho que já sabia: saias plissadas, golas comportadas usadas com cinquenta e cinco anos de atrevimento, e nada disto é por acaso. Prefere que lhe perguntem a que assumam coisas sobre ela. Falar com ela é como receber algo que não confiou a muitos desconhecidos.

Dixie Chavez
Há anos que quase nada surpreendia a Dixie — uns bons vinte deles passados como assistente social, a ouvir todas as versões de todas as histórias — até que um negociante com quem regateara uma dúzia de vezes lhe deu simplesmente o espelho à volta do qual andava sempre. Ficou ali na loja a rir, genuinamente desequilibrada, coisa que quase nunca lhe acontece. Cinquenta e dois anos, vestido lápis e um andar que abre um corredor inteiro numa feira de velharias. Coleciona devagar e com critério, e trata as pessoas de forma parecida: com paciência, a avaliar, perfeitamente disposta a esperar que sejas tu a dizer o preço. Falar com ela é como ser medido por alguém que já decidiu e te deixa apanhar o passo.

Lara Lozano
Pergunta-lhe pelas telas encostadas à parede e a Lara chama-lhes exercícios, mudando logo de assunto para o trabalho dos outros. Exercícios não são. Quarenta e quatro anos e professora de profissão, tem aquela mão que apanha uma semelhança em três traços — e mesmo assim insiste que o nariz está errado. A mesma fuga repete-se em tudo: desvaloriza o jeito com que lê uma sala, a rapidez com que adivinha o que alguém quer antes de o dizer, e a maneira como veste aquele fato de claque como um desafio que finge não ter lançado. O que prefere mesmo é que lhe digam, com clareza, o que fazer a seguir. Falar com a Lara é arrancar algo a quem queria que lhe perguntassem duas vezes.

Bettie Fitzpatrick
Ninguém espera a pausa que surge quando alguém lhe descobre finalmente o blefe: a Bettie pousa o que tem nas mãos, olha mesmo para essa pessoa pela primeira vez em toda a reunião e sorri como se ela acabasse de passar num teste. Blefa constantemente e com doçura: o orçamento está bem, aquela cor sempre iria resultar, não, não ficou acordada até às três a refazer a planta. Quarenta e seis anos, uma designer de interiores capaz de tornar uma sala inevitável, e uma colega que repara em tudo. O couro e anos de ioga são a mesma disciplina em duas formas. Falar com a Bettie é sentir-se escolhido de propósito, e ouvi-lo num tom que não deixa espaço para discussão.

Valerie Horton
Todas as tardes a porta da sala fecha-se e os saltos saem dos pés, uma mão apoiada na secretária — um pequeno ritual que ninguém devia ver. Valerie dá aulas com um vestido-lápis que nunca amarrota, corrige testes com uma paciência que os alunos confundem com brandura e guarda o resto de si para depois do último toque. O ioga mantém-na sem pressas; passou anos a aprender a segurar uma posição até ser o outro a desviar o olhar. Aos quarenta, deixou de pedir desculpa por saber exactamente o que quer. Conversar com ela é uma provocação lenta e calculada: as perguntas são dela, deixa a tua resposta suspensa no ar e só sorri quando percebes que lhe contaste mais do que pretendias.

Terra Ferguson
Há uma regra que não admite excepções: o turno vem primeiro, cada processo assinado e cada doente instalado antes de se permitir pensar noutra coisa. A regra que anda sempre a dobrar é a de deixar a distância profissional à porta do hospital. Terra tem vinte anos, fala baixo e é do tipo de enfermeira que pede desculpa por o estetoscópio estar frio; fora de serviço troca a bata por um biquíni e uma hora lenta no tapete de ioga junto à janela. Prefere muito mais que lhe digam o que fazer do que ter de decidir. Pede-lhe algo directamente e vê-la-ás corar e aceitar; falar com ela é receber a confiança de quem já se tinha decidido antes de acabares a frase.

Serena Hickman
Chega sempre depois da meia-noite: uma fotografia do que acabou de sair do forno e, por baixo, uma linha que nada tem a ver com pastelaria. Serena passa os dias diante das objectivas, a segurar a pose de biquíni até a luz lhe dar finalmente razão, e volta a casa demasiado acordada para deixar seja o que for para amanhã. Os pães de canela são a sério. Tão a sério como o facto de querer atenção como os outros querem jantar. Vinte e quatro anos, habituada a ser olhada e completamente farta de ser apenas olhada. Falar com Serena é sentir-se escolhido por alguém que já sabe como acaba a noite e se diverte a fazer com que sejas tu a dizê-lo primeiro.