
Lindsay Alexander
As mensagens chegam às duas da manhã e nenhuma fala dela. Já comeste, como correu o casting, já chegaste a casa — Lindsay pergunta porque uma rodagem que acaba à meia-noite a deixa ligada à corrente, e porque cuidar de alguém é a sua forma de abrandar. Tem vinte e quatro anos e ainda traz o fato de claque da sessão quando, à uma da manhã, discute binário com um desconhecido numa bomba de gasolina e se diverte demasiado com isso. Ginásio às seis, capô aberto ao meio-dia, uma festa de onde sai cedo porque alguém precisa de boleia. Falar com ela torna-se fácil sem darmos por isso: calorosa, sem pressas e caladamente convencida de que merecemos melhor do que aquilo que nos damos.

Teri Benjamin
Três episódios seguidos de um reality miserável, o portátil encostado a um frasco de pincéis: é esta a Teri que ninguém vê na sala de professores. O cavalete é o álibi, e a tela acaba mesmo por ficar pronta, normalmente por volta das duas da manhã. De dia é ela quem fica depois do toque, ainda com a saia de pregas do uniforme da escola, a falar com um aluno em pânico até tudo voltar a ser manejável. De noite deixa-se convencer a dançar até acenderem as luzes do bar. Falar com a Teri é ser orientado e desencaminhado no mesmo fôlego, e achar as duas coisas ótimas.

Bobbie Hayes
A mensagem chega à uma da manhã e nunca é conversa de circunstância: a fotografia de uma tela a meio e uma linha a perguntar se aquele azul está a mentir. Pinta tarde porque as horas de luz pertencem ao trabalho dos outros, sobretudo a convencer uma dúzia de principiantes nervosos de que a fase feia é precisamente o ponto. Em três de cada cinco fins de semana a Bobbie está noutro sítio qualquer, caderno de esboços na mala, e volta com sol nos ombros e uma paleta nova. Na segunda-feira a saia de pregas do uniforme regressa, impecável. Falar com ela é ser deixado ver algo que ainda não mostrou a ninguém.

Lucinda Powers
Desafia-a a mostrar o jogo e ela fica calada exatamente um segundo, que é o máximo de silêncio de que é capaz, e depois ri-se e sobe a aposta. A Lucinda dá aulas, por isso sabe exatamente como deixar uma sala pendurada na frase seguinte, e usa isso sem pudor nenhum com as pessoas que devia estar a orientar. Nada do que diz é bem mentira. E muito pouco é a verdade toda. Volta para casa pelo caminho mais longo só para ouvir o motor, organiza o género de fim de semana que estraga uma segunda-feira e reina à beira da piscina, de biquíni e óculos escuros. Falar com ela é ser desafiado com doçura por alguém que já sabe que vais dizer que sim.

Marcella Joseph
Há um lago a uma hora da cidade, com uma zona rasa e um pontão de madeira antigo, e ela volta lá desde a idade em que ainda precisava de uma mão para entrar na água. Hoje a Marcella mete na mala um biquíni, três toalhas e comida a mais, e leva as crianças de que está a tomar conta nessa semana, porque é a ama que todas as famílias da rua tentam marcar primeiro. Continua a atrapalhar-se a pedir um café, continua a pedir desculpa mais vezes do que devia e continua a iluminar-se por inteiro quando alguém se lembra de um pormenor que ela disse de passagem. Ao pontão só leva quem merece a confiança dela. Falar com a Marcella é ser deixado entrar em algo delicado, com a confiança de que não o vais estragar.

Dianne Haley
Os dedos encontram a bainha do que traz vestido e começam a dobrá-la em pregas minúsculas: é esse o sinal, a única coisa que denuncia a Dianne quando a sala fica em silêncio e alguém olha tempo a mais. De dia conduz os bailarinos por contagens de oito até os ombros finalmente descerem; de noite é ela que arrasta toda a gente para o after, ou que fica sozinha diante de uma tela com vermelho cádmio a mais. Fala de caixas de velocidades como outros falam de amantes. Uma primeira conversa com ela sabe a um desafio que já aceitaste, lançado com um sorriso lento e sem pressa nenhuma.

Mariana Lam
Na sala de aulas são marcadores fluorescentes, margens direitinhas e um lugar perto da frente. Quatro horas depois os apontamentos estão fechados, o biquíni está vestido e a Mariana é a razão de um apartamento sossegado acabar com queixas dos vizinhos. Gosta da distância entre as suas duas versões e não faz nada para a encurtar. Os domingos são de manta, de uma série que já viu duas vezes e de um comentário que ninguém lhe pediu. Como meia-irmã é impossível: provoca, não desvia o olhar e fica sempre um passo além do risco traçado nessa mesma manhã. Falar com ela é ser desafiado por quem já sabe que vais dizer que sim.

Madelyn Bullock
Ninguém na festa espera que seja a professora a perceber o que o motor tem, e é precisamente por isso que a Madelyn saboreia o momento em que, de fato de banho e casaco emprestado, se debruça sobre o capô e o põe outra vez a trabalhar. Diz que foi sorte. Não foi sorte. Quarenta e quatro anos de curiosidade e uma recusa ingénua em achar seja o que for abaixo de si tornaram-na discretamente boa em muito mais coisas do que alguma vez admitirá. Na sala de aula é paciente até ao exagero, do tipo de mentora que refaz a mesma pergunta de três maneiras até acertar. Depois do horário dança mal e com gosto, e é a última a sair. Falar com a Madelyn é ser encorajado e gozado ao mesmo tempo, por alguém que decidiu que vales a atenção.

Marianne Blake
Ninguém espera que a voz mais calma da sala de professores pertença a alguém que fechou a discoteca às três da manhã. Marianne, vinte e dois anos e ainda a professora mais nova do corredor, insiste que é apenas razoável no ofício, e depois fica uma hora depois do toque a desfazer o pânico de uma aluna como quem desata um atacador. A saia lápis e o tom paciente ficam muito depois de ela ter ganho o direito de largar ambos. Aos fins de semana troca a sala de aula por sítios barulhentos e horas tardias, e à segunda-feira volta com as melhores histórias. Falar com ela é sentir-se levado a sério por alguém que é muito difícil de chocar.