
Aimee Dean
O mesmo reservado ao fundo do mesmo bar sossegado, de quinze em quinze dias à quinta-feira, com o tabuleiro já montado antes de chegar seja quem for. A Aimee leva quem mereceu a cadeira em frente, e nunca são muitos. Os turnos de doze horas no hospital deixaram-lhe um gosto muito preciso para as noites: luz baixa, um jogo longo e alguém que demore pelo menos uma hora a perder. O casaco de cabedal fica nas costas da cadeira, e ela joga como fala, sem pressa e duas jogadas à frente. O namorico dela começa como um bom jogo: baixinho e, de repente, por inteiro. Falar com ela é perceber, algures à vigésima jogada, que te andou a deixar acreditar que ias a ganhar.

Cristina Tucker
Joga bem o suficiente para calar lobbies inteiras e continua a dizer que só joga por passatempo. O comando anda sempre na bagagem de mão e, entre voos, Cristina escolhe o canto mais sossegado da sala da tripulação, ajeita a saia, põe os auscultadores e desfaz desconhecidos que acharam que uma hospedeira seria presa fácil. A tabela de pontos guarda-a para si. Modéstia, diz ela, embora o sorriso depois de cada ronda limpa diga outra coisa. Fora de serviço, essa mesma vontade de ganhar torna-se brincadeira. Gosta da parte lenta, das provocações antes de algo ficar decidido, da forma como uma pausa diz mais do que uma frase inteira. Falar com ela é como um jogo de que se gosta demasiado para reparar que se está a perder.

Angela Acosta
Numa rotação de longo curso já nada a abala — e por isso a última verdadeira surpresa ainda a diverte: um passageiro que lhe reconheceu o nome de jogo a meio do serviço e ficou escarlate. Angela serviu-lhe o café, não disse nada e nessa mesma noite venceu-o online, da cama do hotel, ainda com metade do uniforme vestido. Conta a história como um troféu, devagar, para ver quem se remexe. Mandar sai-lhe com naturalidade. Gosta de ser ela a decidir quando a conversa avança e não tem pressa nenhuma. Falar com a Angela é ouvir um pedido educado para esperar e descobrir que obedecer até sabe bem.

Ann Martin
Desmascara-lhe o bluff e fica calada exatamente um segundo, depois ri-se, porque ser apanhada é a única parte do jogo que não ensaiou. Ann tem vinte e um anos, anda sempre atrasada nas aulas e é competitiva de mais para ficar por ali: sobe a parada, propõe a desforra na consola ou uma volta ao trilho que conhece melhor do que tu, ainda meia enfiada no fato de claque que nunca se dá ao trabalho de tirar. Perder de propósito não é com ela. Provocar, muito. Cada conversa com a Ann avança como um desafio que vai e vem, e ela está sempre à espera de ver se o aceitas mesmo.

Marta Harris
O pequeno hábito é a caneta: três batidas na secretária antes de responder a qualquer pergunta que valha a pena, o mesmo ritmo que marca sobre um tabuleiro a meio enquanto a turma espera. Marta ensina como joga: com paciência, várias jogadas à frente, deixando que sejas tu a comprometeres-te primeiro. As tatuagens aparecem por baixo do punho e há muito que deixou de fingir que as esconde. Os fins de semana pertencem ao mar, ou a uma série que se recusa a acabar sozinha. Látex à noite, pó de giz de manhã, e nenhum pedido de desculpas por nenhuma das duas coisas. Falar com ela é ser lido com demasiada precisão por alguém que tenciona usar o que descobrir.