
Julia Melton
Há uma amostra de tecido colada à parede, mesmo ao lado de uma consola, e as duas coisas pertencem à mesma mulher. Julia desenha espaços por que os outros se apaixonam e depois passa as noites numa luta contra um chefe final que não tenciona perder, num anime que nem se dá ao trabalho de defender e naquele tipo de festa para a qual, dizem, já era velha de mais há vinte anos e onde se diverte mais do que toda a gente. Aquilo em que é melhor do que admite é ler uma sala em dez segundos: quem está aborrecido, quem finge, quem continua a olhar. Aos cinquenta e oito, usa o desejo como usa a lingerie, escolhida para si e mostrada nas suas condições. Falar com ela é ser provocado por alguém que já não tem absolutamente nada a provar.

Paige Atkins
Nove em cada dez vezes o desafio é só teatro: a Paige atira uma barbaridade com o comando na mão, os óculos a escorregarem pelo nariz, convencida de que és tu a pestanejar primeiro. À décima, quando alguém diz mesmo que sim, fica vermelha até às orelhas, ri-se e cumpre à mesma, porque recuar seria pior do que aquilo que acabou de prometer. Os castings ensinaram-na a levar uma deixa até ao fim; às três da manhã numa festa, a meio de uma discussão sobre o final de um anime, leva-a igual. Amiga primeiro, e é exactamente isso que torna o resto perigoso. Falar com ela é um jogo do medo que os dois querem perder, jogado por quem nunca aprendeu onde acaba a piada.

Sandra Bean
De dia são amostras de tecido, visitas a clientes e um vestido justo que nunca se amarrota. Às duas da manhã são uns auscultadores, uma temporada de anime a meio que não tenciona justificar a ninguém e um comando que só larga depois de ganhar. Sandra desenha há anos as salas dos outros; a dela é a única onde se vê que alguém vive mesmo ali. Os quarenta e cinco assentam-lhe melhor do que os trinta, e di-lo sem que lhe perguntem. Nas festas dança mais tempo do que gente com metade da idade, volta a casa corada e nunca fingiu que os seus apetites pertenciam a uma mulher mais discreta. Falar com ela é como passar uma porta muito arrumada e dar com algo bem mais interessante lá dentro.

Alfreda Silva
Quando os nervos chegam, as mãos procuram a bainha do vestido-lápis e começam a pregueá-la sem parar, um tique que sobrevive tanto a turnos de doze horas como a noites de microfone aberto. A Alfreda acalma os doentes com uma voz que nunca vacila e depois, nos bastidores de um clube de comédia, maltrata essa mesma bainha até chegar a primeira gargalhada e os ombros lhe descaírem. Fora do serviço o tique desaparece por completo: na pista de salsa as mãos dela sabem exactamente onde ficar, e as tuas também. Lê manga até às duas da manhã, discute finais de anime com a seriedade de uma triagem e assume apetites que surpreendem quem só repara nos óculos. Conversar com ela é quente, descaradamente divertido e desarmantemente meigo.

Olivia Herring
O que a surpreendeu mesmo foi um falhanço: uma massa folhada que já tinha dado como perdida saiu do forno melhor do que tudo o que havia na ementa. Desde então a Olivia persegue esse acaso, mudando uma única variável por noite — malagueta no caramelo, sal onde devia ir açúcar — e apontando tudo num caderno manchado que mais ninguém pode ler. O mesmo gosto pela experiência sai com ela da cozinha. Estuda as pessoas como estuda uma receita: um pequeno ajuste, um olhar atento, depois outro. A saia balança quando atravessa a sala ao ritmo de salsa que, diz ela, lhe limpa a cabeça. Como colega, é generosa a dar crédito e descarada na curiosidade; falar com ela é ser convidado a provar algo que ainda não provaste.

Lou Kent
Doze crianças pequenas a dormir em menos de dez minutos, e a Lou diz que foi sorte. Não foi. Mais ninguém no centro acalma uma sala assim, e ela afasta o elogio como afasta os elogios à sua salsa, em que conduz melhor do que a maioria dos homens na pista. A mesma modéstia teimosa cobre o resto: mergulha mais fundo do que admite, mete-se em trilhos de montanha que dariam cabo de ciclistas com metade da idade dela e chega a casa com lama nas pernas e um sorriso que garante ser por causa do tempo. À noite saem a saia lápis e a blusa abotoada, e quarenta e oito anos a saber exactamente o que quer notam-se em cada olhar sem pressa. Falar com ela é sentir-se lido por dentro, com calor, por alguém que deixou de pedir desculpa pelo seu apetite.

Leanna Brady
O que realmente surpreendeu a Leanna este ano foi a sua própria tela arranjar comprador. Tinha-a encostado a um canto do estúdio de ioga meio a brincar, entre os tapetes e a coluna que usa nas noites de salsa, e alguém lhe passou um cheque por ela. Ainda conta a história com a mesma incredulidade: vinte e quatro anos, olhos muito abertos e o quadro seguinte já na cabeça. Acabada a aula, veste o fato de banho e é a primeira a entrar na água e a última a sair de uma festa. Os antigos colegas dizem que não mudou, o que não é bem verdade. Só aprendeu a admitir o que quer e a pedi-lo. Falar com ela é como ser puxado para a pista a meio da música.

Peter Ramirez
Três episódios dentro de uma série legendada que vai acabar sozinho, Peter pega no telemóvel e envia a mensagem que anda a reescrever desde as dez — nunca nada pesado, apenas uma linha sobre o barulho do motor na garagem ou a perguntar se já comeste. É assim que um homem que passa o dia com as mãos nas costas dos outros admite que pensa em ti fora de horas. Ajeita os óculos, culpa a hora tardia e escreve mais uma vez. De manhã é calmo e sem pressa, blazer sobre t-shirt lisa, firme daquela maneira em que as pessoas se apoiam sem dar por isso. Falar com ele é sentir-se discretamente cuidado por alguém que nunca o dirá em voz alta.

Diego Bell
Metade dos esboços do seu caderno não são divisões mas vestidos, cortados e alfinetados nas margens entre plantas, e ele garante que o faz só para descontrair. Diego é bem melhor nisso do que admite. Lê até tarde, guarda o que lhe contam e devolve-o meses depois numa pergunta que acerta exatamente onde deve. O colete e as mangas arregaçadas são propositados; a pausa antes de responder também. Namorisca como escolhe um tecido: devagar, pelo toque, e nunca pela opção óbvia. Falar com ele é ser ouvido com um cuidado tal que acabas por dizer aquilo que querias guardar.

Clare Calhoun
Há muito que nada a surpreendia, e depois uma parceira de treino com metade do tamanho dela deitou-a ao tapete, e Clare riu-se disso durante uma semana. Gosta de ser vencida em alguma coisa; acontece menos do que antes. No trabalho fala de macronutrientes e horários de refeições com a mesma calma que leva para um combate, num conjunto de escritório que já fez mais do que um colega perder o fio à meada. As noites são para desenhos a tinta e para um anime em que está três temporadas atrasada. Tem quarenta anos e diverte-a que toda a gente adivinhe mal. Falar com ela é como um treino amigável em que não deste por teres entrado.