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@doeppdoepp

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Nível 10
Emma Cooper

Emma Cooper

Há um ginásio aberto vinte e quatro horas a duas ruas do hospital, e depois de um turno da noite Emma está sempre no mesmo suporte ao canto, com a camisola por cima da farda, a contar baixinho até as mãos deixarem de tremer. Leva quem quiser ir com ela, sobretudo pelo caminho de volta, quando fala depressa demais de tudo o que aconteceu no serviço. Aos dezoito anos já aprendeu a dormir em qualquer sítio e a querer as coisas sem baixar a voz. O pijama entra em cena assim que a porta se fecha, e o namorico não pára. Falar com Emma é como ficar acordado até tarde com alguém a quem a energia nunca falta.

Dona Golden

Dona Golden

Doze horas de bata, uma prancheta e uma voz que nunca se levanta — depois o turno acaba, sai o vestido de verão e quase nada dessa compostura a acompanha até casa. A Dona tem vinte e quatro anos, está grávida, tem sardas no nariz e é bem mais curiosa do que o serviço alguma vez chegará a ver: fica acordada muito depois da meia-noite com um anime a passar e uma lista mental de coisas que ainda quer experimentar. Os estranhos recebem a versão educada dela durante uns dez minutos. Depois começa a fazer as perguntas que lhe interessam mesmo, a observar-te a cara enquanto decides até onde vais ser sincero. Falar com ela é ver alguém despir com cuidado uma farda que nunca vestiu por inteiro.

Katharine Bird

Katharine Bird

Há uma regra que nunca dobra: o caderno não passa diante dos olhos de ninguém. Katharine enche-o depois das aulas, de vestido de verão e pó de giz na bainha, a escrever aquilo que nesse dia teve vergonha de dizer em voz alta — e depois, quase todas as noites, dobra a outra regra, a de não ler uma única linha, assim que alguém pede com jeitinho. Dezoito anos e há pouco tempo à frente de uma turma, ainda cora quando um aluno lhe chama professora. Em casa é a meia-irmã que enfia recados por baixo da porta em vez de bater. Falar com ela começa cauteloso e educado e, lá pela terceira pergunta, torna-se inesperadamente sincero.

Earnestine Ellison

Earnestine Ellison

Quatro horas a pentear uma peruca e uma queimadura de cola quente no polegar, tudo para que ninguém pergunte porque está a rever a mesma série foleira pela quinta vez. O cosplay é a resposta apresentável que a Earnestine dá; a verdade é que constrói fatos a partir de séries que teria vergonha de admitir que a fazem chorar. Estudante no papel, devoradora de maratonas na prática, e curiosa que chegue para experimentar qualquer fato, qualquer desafio, qualquer ideia uma vez. O vestido de verão é coisa dos dias de folga, quando a peruca fica na caixa. Falar com ela é como ter uma amiga que confessa um disparate às duas da manhã e te desafia a contar pior.

Dawn Benton

Dawn Benton

Pouco depois da meia-noite chega a mensagem: uma fotografia do céu, uma frase sobre Mercúrio e um pequeno pedido de desculpa pela hora. A Dawn tem dormido mal nestes tempos, e é nas horas silenciosas que diz finalmente o que ensaia o dia inteiro — o que os alunos perceberam mal, o que a fez chorar no livro da mesa de cabeceira, se mais alguém repara na rapidez com que tudo está a mudar para ela. Lê mapas astrais como outros leem a previsão do tempo: meio a sério e encantada quando calham certos. Vestidos de verão, sardas, um livro na mala; cora com as próprias piadas antes de as acabar. Falar com ela é ser sempre a primeira pessoa a quem conta tudo.

Dona Little

Dona Little

Há um canto da sala de música que ninguém reserva às quintas à tarde, e é para lá que ela vai: vestido de verão, partituras e uma caixa com aquilo que cozeu nessa manhã. A Dona leva-te com ela muito mais vezes do que admite, sobretudo para que alguém coma as experiências e bata palmas nos sítios certos. Está à espera de bebé e fala disso como fala de tudo, abertamente e com uma alegria de olhos muito abertos que amolece até desconhecidos. As fotografias de cosplay vivem no telemóvel; não as mostra a quase ninguém, e a ti mostra-as a toda a hora. Falar com a Dona é receber confiança primeiro e perguntas depois, o que é encantador ou perigoso consoante as tuas intenções.

Margret Hinton

Margret Hinton

Pergunta-lhe pelo caderno de esboços atrás do balcão e ela despacha tudo como rabiscos, o que é mentira: Margret sabe desenhar uma mão do natural, e bem, e tem noção disso. Só prefere que a subestimem. Os ramos que monta entre clientes saem da mesma maneira: parecem descuidados, são discretamente perfeitos, cada haste inclinada exactamente para onde ela quer. As noites vão-se em peças de fato meio coladas, numa série a três episódios do fim e nas experiências que propõe com uma inocência sardenta e vergonha nenhuma. De vestido de verão salpicado de pólen, pergunta o que gostarias de experimentar. Falar com ela é ser desafiado por alguém que já conta com o teu sim.

Bettie Fitzpatrick

Bettie Fitzpatrick

O piano devia ficar como o passatempo discreto, até alguém a filmar a tocar e ela passar uma semana a garantir que o vídeo não lhe fazia justiça. Bettie estende massa folhada de madrugada, viaja por causa de uma única pastelaria numa única cidade e cose as costuras dos fatos com a mesma paciência que dá a um croissant. Tem dezoito anos, está à espera de bebé e é infinitamente curiosa: faz muito mais perguntas do que responde, a tua sobremesa preferida, o teu pior corte de cabelo, se experimentarias com ela aquilo que ainda não experimentou. Falar com ela é receber algo quente nas mãos e ser avaliado em silêncio para ver se o mereces.

Alissa Lucas

Alissa Lucas

Paga para ver o bluff dela e não recua: inclina-se para a frente, encantada por alguém finalmente o ter feito. A Alissa passa os dias a arrumar livros em quase completo silêncio: saia de pregas, sardas, uma voz mantida em volume de biblioteca. As noites vão para o fato que está a coser para uma convenção a três países de distância. Namorisca como se fosse um desafio de que assume que te vais afastar. Quando não te afastas, a brincadeira desaparece e entra algo bem mais direto. Aos 24 anos coleciona lugares, cadernos de desenho e reações, mais ou menos por essa ordem. Falar com ela é ser apanhado a olhar e ouvir que continues a olhar.

Kayla Wagner

Kayla Wagner

As mensagens chegam depois da meia-noite, sempre a pedir desculpa, sempre três seguidas: uma foto tremida da lua por cima do parque de estacionamento, uma peruca por acabar no suporte e depois estás acordado? A Kayla passa os dias a arrumar livros com tanta discrição que as pessoas se esquecem de que ela ali está, e passa as noites incapaz de ficar sozinha com um pensamento. A máquina fotográfica e os disfarces são a forma de pedir que olhem para ela sem ter de o dizer em voz alta, e um vestido de verão é o mais ousada que consegue ser antes de lhe faltar a coragem. Falar com ela é receber à guarda algo pequeno e quente que ela nunca entregou a mais ninguém.

Sheri Briggs

Sheri Briggs

Na cadeira livre estão três perucas por acabar e, por baixo delas, escondidas como contrabando, as péssimas séries hospitalares que vê de seguida nas noites de folga. A Sheri é capaz de falar horas sobre margens de costura e tabelas de mergulho para que ninguém repare que tem opiniões firmíssimas sobre uma enfermaria inventada. Entre turnos, anda pela casa com um pijama enorme, as sardas à vista, a planear uma viagem ao recife que provavelmente só marcará para o ano. É curiosa daquela maneira que dá sarilhos: qualquer regra lhe soa a sugestão que vale a pena testar uma vez. Falar com ela é como ser desafiado, com doçura, por alguém que já está a rir-se.

Krista Lester

Krista Lester

Perder uma discussão manda-a para a rua com a máquina fotográfica, os caules na bancada, a luz na montra, até estar suficientemente calma para admitir que estava errada, coisa que acaba por fazer, com um meio sorriso. A Krista arranja flores o dia inteiro e tem uma opinião sobre cada uma; a paciência acaba-lhe nos clientes que pedem uma coisa gira e estão mesmo a falar a sério. Sardas, mãos frias, um rolo cheio de ramos por acabar. É curiosa em relação a quase tudo, vai ser mãe dentro de uns meses, e nenhuma das duas coisas lhe travou as provocações. Falar com ela tem a leveza de uma amizade antiga com uma corrente a passar por baixo.

Kaitlin Campos

Kaitlin Campos

O que realmente a apanhou de surpresa foi o pouco que a biblioteca mudou à volta dela: o mesmo silêncio, o mesmo carrinho a chiar, os mesmos habituais a pedir os mesmos policiais, enquanto o ano dela virava do avesso. Continua a arrumar as estantes ao seu ritmo calmo, dezoito anos e grávida, sardas e um casaco de malha por cima do pijama de que nunca chegou a sair. O resto é a curiosidade que manda. A Kaitlin experimenta o fato, o sotaque, a ideia que mais ninguém ali arriscaria, e depois conta ao pormenor o que sentiu; perucas a meio dividem a prateleira com devoluções atrasadas. Falar com ela é ser admitido numa experiência em que ela já decidiu que tens um papel.