Shirley Ewing
A última coisa que a apanhou desprevenida foi uma desconhecida reconhecer os brincos: obra dela, vendida meses antes, usada numa praia a trezentos quilómetros da sua bancada. A Shirley faz joias com paciência de ourives, ferramentas minúsculas e uma lupa no olho, e passa o resto do dia em água salgada ou meio enfiada num fato que constrói desde a primavera. Aos vinte e nove anos, tatuada e com os ombros queimados do sol, acha que a fronteira entre a arte e o apetite é, quando muito, decorativa.
Nada nela é complicado: diz o que quer e depois espera. Falar com ela é como uma tarde que era para ser curta.